O Rio de Janeiro continua lindo (e comendo!) - Foto: Creative Commons

O Rio de Janeiro continua lindo (e comendo!) - Foto: Creative Commons

A virada na culinária carioca no olhar de Hubert Aranha

A revolução na gastronomia do Rio prova que a cidade tem energia para superar seus enormes problemas

Hubert Aranha - Publicado em 05/01/2019, às 11h00

Violência, intervenção militar, governadores corruptos, prefeitos incompetentes. Enfim, o Rio está cheio de ingredientes indigestos, coisas que o leitor não queria ler de jeito nenhum nesta saborosa revista.

Mas a verdade é que, de uns anos para cá, nunca se comeu tão bem na cidade. Uma verdadeira explosão de restaurantes (chiques ou não), botequins (pés-sujos ou péslimpos), bares e tascas transformaram a paisagem gastronômica da cidade que, cá para nós, nunca foi tão bonita quanto a paisagem natural. Ainda mais se a gente comparasse o Rio à São Paulo.

Leia mais:

+ O melhor da cena gastronômica de Recife por Hubert Aranha

Hubert Aranha e os programas de culinária na televisão

Hoje, ao contrário, temos boas pizzarias, padarias, steak-houses de responsa, vero italianos, japoneses top, restaurantes vegetarianos onde a comida é, pasme, gostosa. Melhor ainda: temos lugares onde os chefs praticam a boa e velha cozinha brasileira. Aconteceu aqui uma coisa parecida com o que houve na Inglaterra. Irritados com a acusação de que se comia mal na terra de Shakespeare, o Reino se uniu e, atualmente, é um dos melhores destinos gastronômicos do mundo.

Até mesmo os melhores cozinheiros paulistas, acompanham a cena gastronômica carioca e aplaudem chefs como Artagão, Felipe Bronze, Rafa Costa e Silva, Elia Schramm, Roberta Sudbrack, Katia Barbosa e o carioquíssimo Claude Troisgros, que só continua falando daquele jeito porque, se o cozinheiro francês perder o sotaque, perde o emprego. Sem esquecermos dos criativos neobotecos e as microcervejarias geralmente tocados por uma galera jovem e animada, onde se come bem e barato.

Tenho uma teoria para explicar essa mudança de rumos. Aqui no Rio sempre se comeu bem nos botequins, nos restaurantes antigos, geralmente portugueses, mas, vamos combinar, os outros restaurantes eram caros, metidos à besta e relaxados no quesito mais importante: a comida feita com bons produtos e técnica afiada. A chegada de paulistas como Rogério Fasano, a Bráz e a galera do Astor, entre outros, impôs novos padrões de excelência e competência. Hoje, o Rio está “podendo”. Se o jogo virou na culinária carioca, isso prova que a cidade tem energia e criatividade para superar seus enormes problemas. Vamos torcer. E torcer comendo bem!

Hubert Aranha, do Casseta&Planeta, é humorista e guloso profissional.

Este texto foi publicado originalmente na revista Sabor.club #21 que está na melhores bancas por todo Brasil. E também na banca digital www.zinio.com. Ou assine clicando aqui sabor.club/assine

Leia também