- Fotos: Diego Mello

Fotos: Diego Mello

A vida é como uma caixa de chocolates

A da Bel Carvalho passou pela paixão de fazer trufas e bolos num momento em que não havia glamour nenhum nisso

Leticia Rocha - Publicado em 05/11/2018, às 17h00

ERA PÁSCOA E ELA DECIDIRA FAZER OVOS DE CHOCOLATE. Pensamento bem típico de uma jovem de 18 anos, no início da década de 1990, época em que era muito normal “fazer para vender”. Nesses tempos, vale pontuar, era inimaginável prever o status que a gastronomia iria alcançar no país. “Vendeu tudo. E eu gostei dessa coisa de ter um dinheirinho meu para gastar com as minhas besteiras”, conta Bel Carvalho, da Bel Trufas, no Rio de Janeiro. “Tempos depois, minha amiga organizava um bazar e pensei ‘hum, por quê não? ’. Disse sim e naquele momento eu me dei conta que tinha sido picada por esse business e pelo chocolate. ”

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Mal sabia ela que quase trinta anos depois, seria uma referência na cidade e seus doces cobiçados por olhos gulosos. Gente que passa diariamente espiar o que tem na vitrine, gente que quer suas receitas em suas festas, gente que gosta do que ela faz: o simples de uma forma mágica, bem executada e com produto de qualidade. Bolo de chocolate com cobertura de chocolate, trufa de chocolate, cookie de chocolate, receitas em que o tom autoral fica guardado nas entrelinhas e pode ser, por exemplo, fazer o próprio chocolate em pó, triturando uma barra de cacau 100% com açúcar. Outro segredo ela aponta para o lado comilona e diz que só faz o que gosta de comer.

O frisson lá do início seguiu: fez trufas, acondicionou tudo em caixinhas de madeira forradas de tecido, ofício que desde pequena aprendera com a mãe. O dom da cozinha, esse veio da avó e de uma pessoa especial, Lourdes, figura que quebra o discurso da confeiteira, que altera momentos de emoção, outros de silêncio. “Ela era a cozinheira da nossa família e eu só sabia ficar ao lado dela perto do fogão. Foi a pessoa que me viu crescer e esteve em todos os momentos importantes da minha vida. Coincidência ou não, nos deixou em uma Páscoa. ”

“Um dia, uma tia virou para mim e perguntou: quando é que eu ia parar de brincar e ia arrumar um emprego de verdade? ”

Terceiro momento importante nesse caminho foi ler no jornal sobre um curso de trufas, ela amava e se podia comia todo dia. Voltou para a casa e ficou com a informação ‘martelando na cabeça’. Resumo: matriculou-se, se pôs a tentar decifrar como era feita aquela sua receita preferida, fez mil testes e alcançou o objetivo desejado. “Paguei toda a minha faculdade com essa brincadeira”, revela ela, que formou-se em Administração de Empresas. Na sequência, veio a trajetória clássica de muita gente: começou a receber encomenda e depois, a não dar conta delas; foi convidada para vender em um café e depois, em restaurantes, lojas e até em supermercado. Não demorou muito para começar a fazer eventos, casamentos. E ainda trabalhava como vendedora de uma loja e tinha que se dividir entre as duas operações. Tinha também que ouvir indiretas bem diretas. “Um dia, uma tia virou para mim e perguntou: quando é que ia parar de brincar e ia arrumar um emprego de verdade? ” Bel engole e tenta absorver todo o processo até aqui. Precisou chamar uma pessoa para ajudar na cozinha de casa – o socorro ora da avó, ora da mãe, à essa altura, eram insuficientes. Foi morar sozinha e o lar era o centro de produção. “Tinha 24 anos e esse foi o maior medo da minha vida. E se não der certo e se eu não conseguir pagar o aluguel? ” Um ano depois, a já confeiteira engravida, o trabalho só aumenta, passa a ter duas ajudantes e o medo, que sempre batia. A certeza de que estava no caminho certo só veio quando flagrou uma cena da filha, com 1 ano. “Tínhamos trabalhado o dia todo na cozinha e dei de cara com ela lambendo, devorando mesmo toda a beirada da mesa que estava repleta de chocolate. ”

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Tempos depois, o espaço ficou pequeno também, já tinha tido o ‘insight’ de que era isso que queria para a vida até que passou na frente de uma lojinha que sempre namorou, em Ipanema. Foi um sinal, diz. O lugar era um armarinho de um tiozinho que nunca largaria o lugar, pensava ela e todo o bairro. Mas, a placa estava lá: passe-o ponto. “Estremeci, fiquei atordoada, quase liguei, desisti. ” Depois voltou a ligar, sem pretensão alguma. Enfim, fechou contrato, ouviu do marido que estava louca, mas assumiu o segundo maior medo da vida e uma portinha de 12 metros quadrados. Isso era 2012 e ela se dividia entre a operação no fogão e a administrativa. Também chorava muito. Foi assim por dois anos, até que fez um curso de Gestão para chega à seguinte conclusão: “Se você gosta de cozinhar, não abra um negócio! O que menos você vai fazer é cozinhar”. Baixou as portas, ouviu de novo do marido que era louca, até achar um ponto perfeito, no Leblon, onde juntou as operações de cozinha e de escritório.

“Se você gosta de cozinhar, não abra um negócio! O que menos você vai fazer é cozinhar”

 “Foi interessante porque dessa vez não tive medo. Sentia uma certeza que falava: ‘vai, vai’. Fui. Ainda bem. ”

Bel Trufas – Rua General Venâncio Flores, 481, Leblon, Rio de Janeiro – RJ. Tel.: (21) 3114-8035

 

Este texto foi publicado originalmente na revista Sabor.club #15 que está na melhores bancas por todo Brasil. E também na banca digital www.zinio.com.Ou assine clicando aqui  sabor.club/assine

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