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Estúdio Gastronômico

A vida é bem louca, sabia?

Renata Vanzetto que o diga. Caiçara até anteontem, hoje a chef é figura badalada com um único problema: “Preciso conseguir não abrir mais restaurantes”

Robert Halfoun - Publicado em 02/10/2018, às 15h30

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A FRASE QUE INTITULA ESTA REPORTAGEM está estampada, escrita de próprio punho pela jovem chef, numa das paredes do seu restaurante Ema, no badalado bairro dos Jardins, em São Paulo. E não é a única intervenção de Renata Vanzetto na decoração do lugar. Além de outras mensagens, rabiscadas nos mais variados cantos do ambiente, há ainda ilustrações e pinturas de emas, bicho que desenha desde que era criança. Tempos contemplativos que ficaram muito para trás. “Se estou em casa sem fazer nada, o que é raro, estou vendo Chef’s Table, Instagram de chefs... A influência do meu trabalho é o mundo. Dane-s os museus, eu quero ação.” E põe ação nisso.

Renata Vanzetto, 28 anos, é dessas pessoas intuitivas e hiperativas que determinam objetivos e se jogam nele. Ao ouvir essa definição do repórter, sorri, balança a cabeça positivamente e comenta baixinho: “É, até demais...”

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Atualmente ela toca cinco restaurantes, quatro deles recém-inaugurados, num fôlego só: o Ema, pequenino, mudou de ponto e ficou muito maior; o MeGusta saiu da Ilhabela e foi para São Paulo; deu lugar para o bar Lambisgoia, que abre apenas aos fins de semana; o Marakuthai, a casa-mãe de Renata, ganhou novo conceito, saiu de uma rua tranquila para outra mais movimentada (o que fez a frequência triplicar); a filial dele saiu de um ponto e foi para outro; o bufê foi ampliado e também vira espaço de eventos, que abrirá mês que vem. “Minha mãe não gosta de restaurante, gosta de obra”, diz, referindo-se a decoradora Silvia Camargo, uma das cinco mulheres que ajudam Renata a tocar todo o negócio. Só mulheres? “Sou eu, minha mãe, minha tia Regina e outras três que não são sócias e minha prima Aline. Até há sócios homens. Mas eles não mandam nada”, ri. São elas que permitem que a cozinheira faça o que realmente gosta: cozinhar. “Fico mal toda vez que me vejo empresária, longe do fogão. Fiz um combinado comigo: aconteça o que for, à noite eu estou no Ema.”

Ela toca cinco casas, recém-abertas, num fôlego só. “Minha mãe não gosta de restaurante, gosta de obra”

Está mesmo, menos aos sábados, fazendo uma gastronomia criativa gostosa e fácil de entender, com toques caiçaras aqui ou acolá. As influências asiáticas que lhe deram notoriedade quando tinha pouco mais de 18 anos hoje se resumem ao Marakuthai. Depois de brilhar à frente do restaurante, de repente, teve um clique: “Espera, não é isso que eu quero fazer! Por que eu tenho sempre de usar curry, gengibre, leite de coco... Tinha um momento em que eu não aguentava mais sentir o cheiro do arroz jasmim”, conta.

Largar tudo, no entanto, não era um processo fácil. Afinal, tinha uma família inteira envolvida com a empreitada e o sucesso do restaurante que abrira na Ilhabela e migrara para São Paulo havia transformado a vida de todo mundo. “Não tínhamos um real quando começamos, com empréstimo no banco”, lembra. E continua: “Imagina, meus pais tinham muita grana, mudaram para a praia e perderam tudo. A minha infância foi super sem dinheiro. Trabalhava no colégio para pagar a mensalidade.”

 

Folha de uva crocante com pêra e brie e camarão na moranguinha: “Entendi que eu não posso me limitar”

 Agora, não podia dar a louca e dizer: “Olha, gente, cansei. Quero voltar, viu?” A solução foi dar um tempo e ir para Dinamarca. O estágio com René Redzepi, do Noma, fez brotar “quinhentas-mil-ideias” e a vontade de abrir um projeto novo no qual pudesse “cozinhar-o que-eu-quisesse”. “O legal do Ema é que o cardápio é em papel Sulfite. Mudo e imprimo a hora que eu quiser. Entendi que eu não posso me limitar.”

“Eu odeio fazer pratos que já existem. Mesmo que seja um macarrão a bolonhesa, em casa”

O curioso é notar que ela demorou a perceber isso. Renata Vanzetto passou 20 anos na Ilhabela, sem escapadas para a capital. Era, nas próprias palavras, “uma caiçara-bicho-do-mato”. Diz que sofreu com o sucesso na Paulicéia. “Cara, fiquei mal. A transição foi uma merda, eu odiei.”

Hoje virou figura fashion, descolada, dessas que volta e meia está em editoriais das revistas de moda. É a imagem e semelhança do seu próprio público, o que faz a sua cozinha naturalmente autêntica – e inquieta. “Eu odeio fazer pratos que já existem. Mesmo que seja um macarrão a bolonhesa, em casa.”

Dia desses, do nada, resolveu fazer sandubinhas para o jantar. Frango empanado na farinha Panko, maionese de beterraba e picles de couve flor. Serviu. E os fregueses adoraram. Aí, começou a fazer outros. Costela com goiabada, camarão com tinta de lula... “Descobri que eu curto muito essa linha sem frescura, sem muito tempo de preparo, sem mil técnicas...” E lá vem ela: “Se me perguntassem qual seria o meu novo projeto, diria que seria um lugar com coisas para comer com a mão, sanduíches diferentes e divertidos. Tô bem nessa pegada.”
Em tempo, do restaurante na marina do pai, em Ilhabela, até aqui passaram-se 10 anos.
Ema – R. Bela Cintra, 1551, Jardins,
São Paulo - SP. Tel.: (11) 3360-3651

 

*Este texto foi publicado originalmente na revista Sabor.club #03 que está na melhores bancas por todo Brasil. E também na banca digital www.zinio.com.Ou assine clicando aqui  sabor.club/assine

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