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Vale a pena descobrir o Mé, o bar escondido da Renata Vanzetto

O lugar é uma taverna, antiga por definição e moderna no conceito, no porão da casa mais badalada da cozinheira

Robert Halfoun - Publicado em 27/01/2020, às 16h40

Quem viu o filme O Jornal (The Paper, 1994), com Michael Keaton e Glenn Close, faz ideia do que é a tara de um jornalista para dizer: “Parem as máquinas!”, referindo-se a interrupção do processo industrial, porque há um assunto urgente que precisa ser publicado.

Guardada as devidas proporções, foi isso o que aconteceu por aqui, depois que eu visitei o novíssimo Mé, da serelepe Renata Vanzetto.

O lugar é uma taverna, antiga por definição, moderna no conceito – coisas da Renata. Ao ver que o porão do seu badaladíssimo Me Gusta andava muito mal aproveitado e que ele tinha parede de pedras rústicas mas acolhedoras, ela não conseguiu segurar a vontade de praticar o seu esporte favorito: abrir restaurantes. E assim o fez.

 

A ideia de esconder um lugar muito legal é o que há de mais interessante nas metrópoles mais bacanas do mundo. Isso faz tempo, desde da época dos bares speakeasy, feitos para poucos e bons, que queriam beber na época da lei seca. Pois bem, tirando o aspecto da contravenção, o Mé é exatamente isso. Se você entrar no Me Gusta e não souber que ele existe ou se souber mas desconhecer onde é a entrada, não acha nem a pau.

 

A taverna fica depois dos banheiros, atrás da porta de um antigo armário, desses com espelho numa moldura de madeira. Isto é, você olha para o fim do corredor apertadinho e vê... você próprio! Esquece, não acha mesmo.
Quem abre o armário, no entanto, encontra o buraco, na concepção mais carinhosa da palavra, com teto baixo, luz de velas (apenas!), mesas mínimas, pelegos e ovelhas por todos os lados. Nas paredes, em prateleiras e até entrando num buraco do teto.

Bem, a Renata já tinha me contado sobre a paixão dela por emas, bicho que, aliás, dá nome ao seu restaurante gastronômico no segundo andar da mesma casa onde o Mé está emburacado. A ovelha é novidade.

Na verdade, ela é apenas uma sacada que parte da adoração da
cozinheira-empresária pelos animais, digamos, esquisitinhos, como a lhama que representa o Me Gusta. E do som que ela faz – e que o saudoso Mussum, dos Trapalhões, transformou em sinônimo de bebida.

A trilha sonora toca blues raiz. Os garçons são muito educados e falam baixo – que bom. O cardápio é conciso, porém muito especial. Traz coisas como cabeça de polvo, salmão curado, escabeche de mexilhão, num número de porções limitadas por dia. E, que coisa linda, tábuas de iguarias muito bem escolhidas de produtores como o A.mar (curados e defumados de peixe), o Pirineus (embutidos) e a loja Mestre Queijeiro (que garimpa queijos muito
bem afinados Brasil afora). A Renata define: “Não quero servir pratos principais, somente petiscos. E como a seleção é simples e pequena, vamos dar muita atenção aos produtos. De gente que, faz tempo, está comigo nesta jornada de fazer e servir”.

Há mais um fetiche no jornalismo que passa pela estranha vontade (incompatível e incoerente com a essência da profissão) de não divulgar lugares secretos e muito especiais – para que eles fiquem sempre assim. Como se vê, sucumbi a mais legítima obrigação de informar. E deixo a dica: nem pense em convidar a Renata para uma visita à sua casa, se você tiver um espaço ocioso nela. Periga dela querer abrir um restaurante por lá.Mais uma vez, a cozinheira acerta na mosca no conceito  – e nas escolhas. A tainha defumada com as ovas curadas dela (bottarga) é uma das melhores coisas que eu comi esse ano. A cabeça de polvo feita com azeite e páprica defumada enche a boca de gosto e pede acidez para acompanhar. Ela pode vir da enxuta carta de drinques ou da seleção de vinhos parrudos, que sugerem um investimento a mais. E, quer saber?, como ali está tudo muito acertado, realmente vale a pena relaxar um pouco no orçamento.

 

 

Mé – Rua Bela Cintra, 1.551, subsolo, Jardins – São Paulo – SP