Tatiana segue a tradição de seu pai, Marcos Bassi - Foto: Estúdio Gastronômico

Tatiana segue a tradição de seu pai, Marcos Bassi - Foto: Estúdio Gastronômico

O grande legado do melhor churrasqueiro do Brasil

Marcos Bassi inventou a fraldinha e o bombom, mas seu verdadeiro presente é Tatiana, a filha que segue seus passos

Robert Halfoun - Publicado em 25/11/2018, às 15h00

Há uma foto enorme de Marcos Bassi, bem na entrada do seu lendário restaurante, o Templo da Carne, no coração no Bixiga, em São Paulo. Tatiana Bassi passa por ela toda as manhãs, quando chega para trabalhar. E não evita a saudação, em alto e bom tom: “Bom dia, pai”. “No começo, os funcionários estranhavam. Agora, não dúvido, devem saudá-lo também.”, brinca.

Marcos Bassi, o homem que inventou a fraldinha e o bombom e afinou tantos outros cortes com as mãos de cirurgião que tinha para cortar um boi inteiro no frigorífico, foi o maior açougueiro e churrasqueiro que este país já viu.

Dizia que “churrasco é estado de espírito”, colocou a carne para assar na TV e se transformou num mito. Numa lenda que a filha, depois de anos de luto, desde a morte do pai, em 24 de março de 2013, trata de manter muito viva, cuidando da valiosa doutrina deixada pelo mestre.

Quem encontra com ela vê logo que Tatiana, com traços claros do pai marcados no rosto, é a pessoa perfeita para fazer isso. Tem mais certeza ainda quando vê as mãos, idênticas às do pai, com uma faca na mão e brilhos nos olhos, diante de uma peça de carne.

Um antigo freguês a avista, ao sair do salão do restaurante, lhe tasca um abraço comovido e não titubeia: “Adoro os vídeos que você faz. Me lembra o Marcos, é igualzinho o jeito que faz assim na mesa”, gesticulando como se apoiasse as mãos sobre ela. A semelhança e o conhecimento adquirido vêm do convívio com o churrasqueiro, desde que tinha 10 anos de idade. Ajudá-lo, sempre que dava, era a maneira de tê-lo por perto. “A minha vida inteira eu não tive o meu pai comigo. Porque ele levantava de madrugada e chegava quando eu já estava dormindo. Tudo isso para um bem maior. Ele trabalhava com paixão e por acreditar muito no que ajudou a construir.”

Ainda mirradinha, Tatiana ajudava a abastecer de carne a Kombi que levava o pai e sua equipe para inúmeros eventos, nos fins de semana; carregava espetos enormes; salgava carne; ia verificar a qualidade do boi, ainda no frigorífico, mesmo que tivesse de usar botas de proteção duas vezes maiores do que o seu pé. De tanto olhar e ouvir, aprendeu. Nunca precisou de uma aula de como escolher, assar ou cortar carne, embora Marcos fosse um tremendo professor. Hoje, além de tocar os negócios, ao lado da mãe, D. Rosa, e da irmã, Fabiana, tem feitos eventos nos quais, assim como fazia o pai, dá aulas de como preparar um bom churrasco. “Esse cara é o meu maior ídolo. Todos os anos que investiu não podiam ficar para trás. Me senti na obrigação de assumir tudo isso.”

A decisão, no entanto, levou um tempo para ser tomada. Tatiana classifica a perda do pai como irreparável, ainda chora ao falar dele. “Meu pai era tudo o que acho que uma pessoa deve ser na vida”, diz. Mas há uma hora em não há saída, senão reagir. “Vi que era a hora de tirar o preto, vestir o salto, pintar a boca e trabalhar.”

As boas surpresas começaram a surgir, dia a dia. “Eu não imaginava que sabia o tanto que eu sei. Não achava que era tão capaz. As coisas foram surgindo desde que eu realmente coloquei a mão na massa.” Agora, já inserida na leva de novos churrasqueiros que vem dando o que falar no Brasil, não só dá workshops, assim como lança um grupo de churrasqueiras, para fazer eventos e aproximar mais as mulheres da brasa (veja quadro). Claro, os marmanjos também estão convidados para ouvir todo tipo de dica . “Fraldinha não se faz fora do espeto. Até pode fazer, mas não vai ficar tão boa. Pronto, levantei a polêmica”, brinca. “Ela não é um músculo de contração, mas de proteção. Não tem gordura, é difícil segurar o sangue lá dentro. Só compactando, como meu pai desenvolveu, conseguimos fazer isso.”

Marcos Bassi era um estudioso contumaz. Chegou a transformar o quintal de casa em açougue e o da Tatiana, quando ela estudava nos EUA, também. A história é ótima, lembra ela.

O pai ia visitá-la duas vezes por ano. Lá, gostava de fazer compras no supermercado. Espiar, claro, o que acontecia no açougue. E por que diabos, afinal, eles trabalhavam apenas com uma enorme peça de contra-filé, da qual iam tirando os subcortes? Num dia entrou no frigorífico e, antes de que fosse preso, acusado de querer roubar carne, deu um jeito de explicar, em português mesmo, que o que queria era comprar a tal peça inteira. Como não era vendida assim, não havia um preço estabelecido para ela, naturalmente. Aí, foi um fuzuê: de tanto insistir, tirou um maço de dólares do bolso e acabou levando o que queria. Pronto, agora estava feliz como pinto no lixo, cortando a carne ao seu jeito, para churrasquear e depois lotar o freezer da filha com porções para os próximos nove meses que ficaria distante. “Eu sinto falta de pegar nele. De sentir as mãos com aquele eterno cheiro de carne”, diz. E revela também que “tinham muito arranca rabo”. “Porque a gente era igual. Ele costumava dizer que queria que eu fosse ele melhorado.”

Com os olhos marejados, lembra da frase que tantas vezes ouviu do pai: “Tatiana, minha filha, eu investi muito para que você não seja igual a mim. Mas melhor do que eu”.

Uma brasa, mora?

Tatiana Bassi segue os passos do pai e cria grupo para ficar mais perto do público

[Colocar Alt]

Marcos Bassi, nos anos 1970, com a mulher, Rosa,
e as filhas Fabiana e Tatiana (à dir.)

O carisma em pessoa, Marcos Bassi sabia que além de desenvolver as técnicas de churrasquear, precisava mostrar de perto para as pessoas como escolher, cortar e assar.

Por isso, criou um espaço no segundo andar do seu restaurante onde fazia isso. Hoje, Tatiana ocupa o lugar e faz o mesmo nas noites que batizou de Meet & Grill. Fora dali, lança agora o grupo As Braseiras, com 11 especialistas em carne de todo o Brasil. A ideia é fazer eventos para mostrar que as mulheres também são grandes assadoras, num mundo até então majoritariamente masculino. “Nós temos uma sensibilidade e uma percepção do fogo muito diferente”, diz.

 

Este texto foi publicado originalmente na revista Sabor.club #03 que está na melhores bancas por todo Brasil. E também na banca digital www.zinio.com.Ou assine clicando aqui sabor.club/assine

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