A boa comida servida no riso.e.ria é resultado da ousadia e da criatividade do casal Tássia Magalhães e Daniel Steinle - Fotos: Henrique Peron

A boa comida servida no riso.e.ria é resultado da ousadia e da criatividade do casal Tássia Magalhães e Daniel Steinle - Fotos: Henrique Peron

Tássia Magalhães e Daniel Steinle e a criatividade na cozinha

Em cinco dos sete dias da semana Tássia Magalhães e Daniel Steinle comiam mexidões caprichados. Até que transformaram o gosto num negócio que pode estar nas capitais mais antenadas do mundo

Robert Halfoun - Publicado em 23/05/2019, às 14h00

 

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SABE AQUELES DIAS EM QUE A GENTE chega em casa e não tem nada para comer? A boa saída é pegar um arrozinho e depois achar uns ingredintes na geladeira, para fazer àquele mexidinho caprichado.

A vida da chef Tássia Magalhães, tantas vezes premiada quando comandava a cozinha do Pomodori, em São Paulo, e do namorado Daniel Steinle era assim. Faltava tempo entre os bufês que ela fazia e o dia a dia dele, envolvido com o mercado financeiro. E como ambos adoram arroz, lá estava ela na cozinha em 5 dos 7 dias da semana misturando o grão com os mais variados ingredientes. Sempre acompanhado de farofa, que eles “a-do-ram”, como dizem. Volta e meia, recebiam os amigos com o mesmo cardápio – que fazia o mesmo sucesso.

Desde sempre, a difícil tarefa de transformar o simples em algo encantador é uma das grandes mágicas da cozinha mundial. Hoje, grandes cozinheiros têm aplicado a aptidão em lugares simples, pequenos e fascinantes. “A Tássia mistura as coisas com a maior naturalidade. Ficava fascinado toda vez que ela ia para cozinha, saía abrindo a geladeira, improvisava e servia uma puta comida.”

O fascínio virou negócio em horas, depois da ideia inicial. De forma quase orgânica, ela ia pensando nos pratos de arroz e anotando tudo em post its cor-derosa – daqueles com tom fluorescente. Num instante, os pratos que vemos hoje assinalados no tabuleiro do riso.e.ria, em São Paulo, estavam relacionados.

“A Tássia mistura as coisas com a maior naturalidade. Abre a geladeira, improvisa e serve uma puta comida”

 O casal havia chegado da Itália onde viu o modelo de comida boa e barata ser colocado em prática. Aí, foi juntar a fome com a vontade de comer para fazer as contas e abrir a casa com arrozes de todos os tipos, feitos no maior capricho. Cremosos e gostosos – sem manteiga e sem parmesão.

Tem agulhinha, cateto, vermelho. Tem arbóreo também mas não para fazer risoto. Tássia não faz porque risoto bem feito é complicado e demorado para fazer. E não, não se encaixa do espírito livre que ela e o Daniel definiram para a casa deles. Lugar, aliás, onde a chef é vista no seu fogão de quatro bocas e também servindo e conversando com os fregueses. “Isso aqui é o meu xódo”, orgulha-se.

Além de fazer um prato que ela adora e praticar uma gastronomia moderna e antenada, o riso.e.ria a envolve com uma carga emocional grande. O pai que a viu se destacar na capital da nossa gastronomia também ficaria orgulhoso ao ver a menina que chegava da escola e corria para ver o programa da Palmirinha, como um espelho do que mostrava para ela.

O seu Ubirajara partiu pouco antes do novo restaurante abrir. Mas lá ficou a homenagem: o arroz Biro Bira, feito do jeitinho que ele gostava de preparar. Com arroz, feijão, linguiça artesanal e cebola caramelizada.

 

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Arroz Biro Bira, em homenagem ao pai da chef. E o com frutos do mar: campeões de audiência

“Eu entrei na cozinha por causa dele”, conta Tássia. Aos domingos, o Bira acordava cedo, levava café na cama para as filhas e, mais tarde, ia para a cozinha. lá pelas 11 horas, pegava um copo de uísque e ficava curtindo o ritual de preparar o almoço da família. “Não tinha muita coisa, mas ele ficava umas cinco horas na cozinha. E eu admirava muito isso”, lembra a filha.

Hoje a admiração mudou de lado. Ao longo da carreira, a Tássia acumulou tantos admiradores da sua comida que eles a seguem para ela onde vá. Volta e meia, antigos clientes do Pomodori, deixa, de lado a pompa dos restauranntes tradicional, e vão para o riso.e.ria, com seus vinhões debaixo do braço. E ficam felizes da vida por lá, não raro por tardes inteiras.

Tássia Magalhães se destacou na alta gastronomia e seus clientes a seguem para onde ela vá. Estão fascinados como o simples que ela faz é absolutamente encantador

 

Embora simples, o restaurante é agradável e funciona bem nos detalhes, culpa do Daniel, que largou um cargo de destaque numa empresa de cartão de crédito porque estava cansado de ficar no escritório desenvolvendo estratégias. Ele queria o corpo a corpo, meter a cara.

A experiência o fez estabelecer processos que fazem o seu novo negócio, ao lado da mulher, andar redondo. Faz de tudo. Só não vai para cozinha, para não constrangê-la, ri. E conta a sua história, colocando as mãos na cabeça, daquele jeito como se tivesse feito uma grande boabagem.

Quando conheceu a Tássia, foi abusado e quis, veja só, usar o que vira a nonna italiana fazer nas caçarolas e... cozinhar para a pretendente. Escolheu o pior cardápio possível: risoto.

Se ficou bom? A chef diz que o peixe que acompanhava o prato estava uma delícia. A boa notícia é que nove de dez cozinheiros derrapam (achando que não) ao fazer o prato-que-parece-simples-mas-não-é.

Assim como pegar a frigideira e transformar arroz num prato delicioso.

Diferentes tipos de grãos de arroz

 

1 - Mix de grãos – Combina muito bem com os vegetais do arroz vegetariano. Tem cevada, selvagem e agulhinha integral.

2 - Vermelho – É usado com açafrão no arroz de galinha. Para difrenciá-lo do tradicional arroz de galinha e dar mais cremosidade para a sua receita.

3 - Arboreo – Usado basicamente nas entradas, como o arroz crocante, que precisa de muito amido para dar cremosidade e mais umidade para a receita.

4 - Cateto integral – Era o mais usado no Brasil, antes do agulhinha chegar por aqui. É leve e dá suavidade para partos com ingredientes encorpados, como o polvo e o pato.

5 - Agulhinha – É o tradicional do arroz com feijão e perfeito para a receita do Biro Bira, que simula o prato mas não leva caldo. O arroz da cremosidade e umidade para a receita.

riso.e.ria – Rua João Cachoeira, 225, Itaim, São Paulo – SP. Tel.: (11) 2614-1690

 

*Esta reportagem foi publicada originalmente na revista Sabor.club #26, que está na melhores bancas por todo Brasil. E também na banca digital www.zinio.com. Ou assine clicando aqui  sabor.club/assine.

 

 

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