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Simone Campos é a nona geração de mulheres da família dedicadas aos doces portugueses

Confeiteira mantém viva a tradição secular que tem a história contada em objetos, receitas e relíquias no Rio

Luisa Mattos - Publicado em 11/09/2020, às 15h00

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Quem pega o bonde no Centro do Rio e sobe para Santa Teresa, logo se depara com seu casario antigo, boa parte construída no século 19. As casas guardam em si muitas histórias, sendo um verdadeiro passaporte para o passado. Uma delas se encontra na Rua Almirante Alexandrino, com uma pequena placa na porta em que se lê Alda Maria Doces Portugueses.

Após a entrada, uma sala repleta de antiguidades e uma moça simpática atrás de um balcão: Simone Campos, filha da doceira que dá nome ao lugar e integrante da nona geração de mulheres dedicadas às receitas mais tradicionais da confeitaria lusitana. Hoje, ela é chef-confeiteira e toca o negócio ao lado da mãe. Mas garante que bem que tentou fugir desse “destino”. Estudou teatro e belas artes durante a faculdade, porém se emociona ao dizer que os laços afetivos e consanguíneos falaram mais alto.

 

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Enquanto serve um café, Simone conta a história de sua família, vinda dos Açores para o sul do Brasil por volta de 1730, quando se enraíza a árvore genealógica de mulheres doceiras. “Nessa época, as receitas eram ensinadas nos conventos, onde mulheres mais elitizadas estudavam com o intuito de se tornarem esposas exemplares.”

Já no Brasil, sua tetravó (a avó de sua bisavó), Bernardina Barcellos de Lima, entrou para a história do Rio Grande do Sul como forte apoiadora dos charqueadores que lutaram na Guerra dos Farrapos contra o Império, cuidando dos feridos e alegrando a vida dos insurgentes com seus doces.

“Resgatar a memória afetiva da minha família por meio da confeitaria é uma retomada das lembranças de outras pessoas”

 

A mesa sobre a qual Bernardina produzia suas delícias se postergou por entre as gerações seguintes até chegar à cozinha de Simone e Alda. Atualmente, o móvel é parte do chamado Museu do Doce, espaço onde esse e outros artefatos, todos relacionados à confeitaria, são expostos lá mesmo, na casa de Santa Teresa. Entre as relíquias, cadernos de receitas da família, que ainda são base do trabalho feito pela doceira: “Essas páginas são repletas de segredos, toques pessoais e todo o sentimento com o qual as minhas antepassadas preparavam as sobremesas. Tudo isso só existe em cadernos escritos pela mão de quem tem muito amor pelo o que faz.”

 

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Os registros, feitos há cerca de um século, contam com instruções sobre doces que hoje são raros no Brasil e até mesmo em Portugal, tais como Fatia de Braga e Queijinho de Amêndoas. Também elucidam o modo antigo de preparo de outros menos incomuns como Toucinho do Céu, Pastel de Nata e Bem-casados. Todos são produzidos artesanalmente na cozinha da Simone e vendidos por lá ou sob encomenda.

Ela prepara tudo com o conhecimento técnico que adquiriu a partir dos ensinamentos transmitidos de geração em geração. O seu toque pessoal esta na finalização elegante dos doces, antes apresentados de forma mais rústica.

Ela relembra de sua infância e adolescência brincando e, posteriormente, ajudando na cozinha: “Minha mãe teve quatro filhos e a solução encontrada para que ela tivesse uma carreira e também cuidasse da gente foi fazer doces para vender, a partir das receitas de nossa família”. Também conta, com um sorriso no rosto, sobre seu primeiro bolo, feito aos sete anos de idade: “Para mim, era uma brincadeira! Lembro que a massa ficou macia e crocante, só não me pergunte a receita. Foi completamente improvisada”.

“A cozinha me conecta as oito mulheres que vieram antes de mim. O elo entre nós todas é o amor pelo qual estamos aqui”

 

Hoje, a brincadeira virou a missão de levar adiante o legado familiar, mantendo vivas as várias das receitas que representam a cultura gastronômica de um povo. “O meu maior desafio é ser absolutamente fiel as características tradicionais de cada doce.” Ela fala e se emociona: “Resgatar a memória afetiva da minha família por meio da confeitaria também é uma retomada das melhores lembranças de outras pessoas. A cozinha me conecta com essas oito mulheres que vieram antes de mim e com tantas outras que não conheço. Acredito que o elo entre nós todas é o amor pelo qual estamos aqui, perpetuando afetos”.

 

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