Simone Campos herdou de sua família o amor pela confeitaria - Por: Luisa Mattos

Simone Campos herdou de sua família o amor pela confeitaria - Por: Luisa Mattos

Simone Campos: a doceira que mantém viva a confeitaria tradicional da família portuguesa

A mulheres da família da Simone Campos fazem doces há nove gerações. Agora, mais do que manter viva a tradição dos bocados portugueses, ela perpetua afetos

Luisa Mattos - Publicado em 27/05/2019, às 09h00

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QUEM PEGA O BONDE NO CENTRO DO RIO E SOBE PARA SANTA Teresa, logo se depara com seu casario antigo, boa parte construída no século 19. As casas guardam em si muitas histórias, sendo um verdadeiro passaporte para o passado. Uma delas se encontra na Rua Almirante Alexandrino, com uma pequena placa na porta em que se lê Alda Maria Doces Portugueses.

Após a entrada, uma sala repleta de antiguidades e uma moça simpática atrás de um balcão: Simone Campos, filha da doceira que dá nome ao lugar e integrante da nona geração de mulheres dedicadas às receitas mais tradicionais da confeitaria lusitana. Hoje, ela é chef-confeiteira e toca o negócio ao lado da mãe. Mas garante que bem que tentou fugir desse “destino”. Estudou teatro e belas artes durante a faculdade, porém se emociona ao dizer que os laços afetivos e consanguíneos falaram mais alto.

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Encharcada e pudim de claras em versões absolutamente tradicionais – e perfeitas!

Enquanto serve um café, Simone conta a história de sua família, vinda dos Açores para o sul do Brasil por volta de 1730, quando se enraíza a árvore genealógica de mulheres doceiras. “Nessa época, as receitas eram ensinadas nos conventos, onde mulheres mais elitizadas estudavam com o intuito de se tornarem esposas exemplares.”

Já no Brasil, sua tetravó (a avó de sua bisavó), Bernardina Barcellos de Lima, entrou para a história do Rio Grande do Sul como forte apoiadora dos charqueadores que lutaram na Guerra dos Farrapos contra o Império, cuidando dos feridos e alegrando a vida dos insurgentes com seus doces.

“Resgatar a memória afetiva da minha família por meio da confeitaria é uma retomada das lembranças de outras pessoas”

 

A mesa sobre a qual Bernardina produzia suas delícias se postergou por entre as gerações seguintes até chegar à cozinha de Simone e Alda. Atualmente, o móvel é parte do chamado Museu do Doce, espaço onde esse e outros artefatos, todos relacionados à confeitaria, são expostos lá mesmo, na casa de Santa Teresa. Entre as relíquias, cadernos de receitas da família, que ainda são base do trabalho feito pela doceira: “Essas páginas são repletas de segredos, toques pessoais e todo o sentimento com o qual as minhas antepassadas preparavam as sobremesas. Tudo isso só existe em cadernos escritos pela mão de quem tem muito amor pelo o que faz.”

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A receita das fatias de Braga estão num caderno centenário, que passa de geração para geração

Os registros, feitos há cerca de um século, contam com instruções sobre doces que hoje são raros no Brasil e até mesmo em Portugal, tais como Fatia de Braga e Queijinho de Amêndoas. Também elucidam o modo antigo de preparo de outros menos incomuns como Toucinho do Céu, Pastel de Nata e Bem-casados. Todos são produzidos artesanalmente na cozinha da Simone e vendidos por lá ou sob encomenda.

Ela prepara tudo com o conhecimento técnico que adquiriu a partir dos ensinamentos transmitidos de geração em geração. O seu toque pessoal esta na finalização elegante dos doces, antes apresentados de forma mais rústica.

Ela relembra de sua infância e adolescência brincando e, posteriormente, ajudando na cozinha: “Minha mãe teve quatro filhos e a solução encontrada para que ela tivesse uma carreira e também cuidasse da gente foi fazer doces para vender, a partir das receitas de nossa família”. Também conta, com um sorriso no rosto, sobre seu primeiro bolo, feito aos sete anos de idade: “Para mim, era uma brincadeira! Lembro que a massa ficou macia e crocante, só não me pergunte a receita. Foi completamente improvisada”.

“A cozinha me conecta as oito mulheres que vieram antes de mim. O elo entre nós todas é o amor pelo qual estamos aqui”

 

Hoje, a brincadeira virou a missão de levar adiante o legado familiar, mantendo vivas as várias das receitas que representam a cultura gastronômica de um povo. “O meu maior desafio é ser absolutamente fiel as características tradicionais de cada doce.” Ela fala e se emociona: “Resgatar a memória afetiva da minha família por meio da confeitaria também é uma retomada das melhores lembranças de outras pessoas. A cozinha me conecta com essas oito mulheres que vieram antes de mim e com tantas outras que não conheço. Acredito que o elo entre nós todas é o amor pelo qual estamos aqui, perpetuando afetos”.

Alda Maria Doces Portugueses – R. Alm. Alexandrino, 1116, Santa Teresa, Rio de Janeiro – RJ. Tel.: (21) 2232-1320

 

*Esta reportagem foi publicada originalmente na revista Sabor.club #27, que está na melhores bancas por todo Brasil. E também na banca digital www.zinio.com. Ou assine clicando aqui  sabor.club/assine.

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