- Lucas Terribili

Lucas Terribili

Ser tão mulher

A mixologista Alice Guedes inspira-se na força e na doçura da cangaceira Dadá para fazer drinque que aponta um novo rumo para a nossa coquetelaria

Robert Halfoun - Publicado em 03/08/2018, às 15h21

Dadá nasceu Sérgia. Sérgia Ribeiro. Ainda menina, foi raptada por Corisco, o diabo louro, braço-direito de Lampião, e tornou-se sua esposa. Das mulheres do cangaço, foi a única a pegar em armas e a participar de batalhas. Tinha pontaria precisa, era valente, lutava como uma garota.

As mesmas mãos que atiravam com destreza, no entanto, também bordavam que era uma beleza. Fora dos campos de combate, Dadá era doce, feminina. Adorava cores e formas. Foi uma espécie de estilista do cangaço, responsável pelos florais coloridos nas roupas e pelos adornos que ficaram famosos, como as estrelas de Salomão que iam parar nos chapéus dos cangaceiros.

Foi inspirada nesse cenário que a mixologista carioca, Alice Guedes, criou o Ser-tão Mulher, drinque exclusivo da carta do balcão do Guarita, bar liderado pelo mestre Jean Ponce, em Sampa.

Quando surgiu a ideia de criar um menu que só seria servido para quem estivesse sentado à bancada, vivendo a experiência de ver como o seu drinque é feito, a equipe de coquetelaria foi convocada para criar os drinques autorais.

Alice já tinha grande sucesso com o Frida Kahlo, que se destacou num dos principais concursos de mixologia do mundo . Não titubeou ao usar o mesmo conceito e homenagear mulheres que, orgulha-se em dizer, estavam à frente do seu tempo.

A dureza de Dadá surge na cachaça baiana, bem envelhecida em bálsamo. O lado ácido e porreta vem num mix de limões e gotas de pimenta. A doçura, na geleia de cupuaçu, o que confere à bebida um sabor bem regional. Ela vai dentro do drinque e numa colher fora dele, apoiado na cuia de barro que apresenta o coquetel.

Diante dele, Alice sugere: “Coma um pouquinho do doce e depois beba o drinque”. Aí, amigo e amiga, prepare-se para viajar num bioma inteiro de sabores. Tudo muito equilibrado. Quem pensa que vai encarar um drinque-frutinha, toma um coice da cachaça e da pimenta. Quem pensa que vai sentir a força da aguardente, recebe um cafuné da geleia.

Sem saber da história, a bebida lhe leva para o ambiente sertanejo, se você tiver alguma referência de como ele é – e o significado que tem. Em coquetelaria, usa-se muito o conceito para valorizar criações. Mas isso, muitas vezes, acaba ficando só no discurso. Aqui, não. A viagem de fato acontece, indicando um belo caminho que essa coquetelaria conceitual deve seguir.

Alice Guedes já tem no currículo passagens por balcões fora da curva, como o do Meza Bar, no Rio, e o do Floreria Atlântico, em Buenos Aires. Agora, está sob as vistas de Jean Ponce. Vale a pena ficar de olhos bem abertos sobre ela.

Guarita Bar – R. Simão Alvares, 952, Pinheiros, São Paulo – SP. Tel.: (11) 3360-3651

 

*Leia a reportagem completa na edição #19 da Revista Sabor.club: já nas bancas ou se preferir, assine em http://sabor.club/assine/