- Henrique Peron

Henrique Peron

“Ser mãe muda o tempo das coisas”

A maternidade tem feito a cozinha de Bel Coelho evoluir muito

Robert Halfoun - Publicado em 08/10/2018, às 17h00

BEL COELHO E FRANCISCO, O FILHO DE DOIS ANOS, ESTÃO numa peixaria. Ela escolhe e ele pergunta. Quer saber tudo. Que peixe é esse, mãe? Que gosto tem? O peixeiro explica, apresenta o pescado para ele. Francisco põe a mão, sem os nojinhos típicos de criança. O curioso filho da chef do Clandestino, em São Paulo, já está acostumado. Ou está se acostumando. Ele, afinal, vive às voltas pela cozinha, quando não está na escolinha, no período da tarde. Bel faz questão de ter a cria por perto. Não só o Francisco mas o José também, nascido há seis meses. Essa é a maneira como a chef encontrou para fundir a maternidade com a cozinha. “Demorei para descobrir como uma coisa completa a outra”, conta, sentada no sofá da casa dela, com um olho no repórter e outro no pequeno José, que faz aqueles barulhinhos fofos, na tentativa de virar de bruços. “Estava muito feliz, mas os primeiros meses com o Francisco foram melancólicos. Via as pessoas fazendo coisas incríveis na redes sociais e eu dando de mamar. Cheguei a pensar em começar a fazer papinha para vender.”

Hoje, comenta como a maternidade a ajudou a evoluir na cozinha, especialmente no processo da construção do gosto. “Ser mãe muda o tempo das coisas. Me ensinou a ter mais serenidade para ajustar o foco. A gente não dispersa tanto, é engraçado...”

[Colocar Alt]

A conclusão da chef se reflete diretamente nos pratos dos cardápios servidos apenas durante uma semana de cada mês, período de funcionamento do restaurante. O uso dos ingredientes nativos, que hoje caracterizam o seu trabalho, surgem de forma mais delicada, muito integrados com as nossas principais referências gustativas.

O trabalho acontece como se estivesse apresentando algo novo para o curioso Francisco. Primeiro, prova o ingrediente individualmente. Avalia. Prova novamente para que o gosto e aroma fiquem na memória. Com isso em mente, ela deixa o produto de lado. Mais tarde, ela simplesmente aplica aqui ou ali, como se o preparo que está desenvolvendo pedisse por ele. Foi assim que surgiu a bisque de amburana (semente muito aromática). “Era uma receita comum. Mas as nuances iam surgindo e as conexões e ideias foram tomando forma.”

O contato com os ingredientes exóticos começaram há 13 anos, quando o lendário e saudoso paraense Paulo Martins, guru também de Alex Atala, a convidou para ir para Belém e conhecer os produtos de lá. Ali, Bel começou a se encantar com eles. O encanto deu (e dá)

“Via as pessoas fazendo coisas incríveis e eu dando de mamar. Cheguei a pensar em começar a fazer papinha”

[Colocar Alt]

origem as pesquisas e viagens. Muitas delas feitas durante as gravações do programa Receitas de Viagem, quando ainda não tinha filhos. “Conheci muito produtor pequeno. Fui para lugares que definitivamente não iria, não estavam no meu roteiro.” Hoje, a chef é também muito procurada por quem está no campo. O mundo das frutas, legumes, plantas e sementes é bem vasto na casa dela. Francisco, por exemplo, adora quando ela faz creme de cumaru. O menino come e pergunta. A mãe conta orgulhosa: “Ele tem uma relação com plantas e alimentos inacreditável. Como quer explicação para tudo, eu acabo tendo de aprender muita coisa para poder responder às questões que ele coloca”. Francisco também gosta de saber como se dão os processos – em detalhes. Tal filho, tal mãe. “Sou muito metódica, exigente com arrumação e limpeza, minuciosa com as subreceitas de cada receita. Sou cheia de esquemas, crio modos de operação para as coisas funcionarem.” Por isso, demorou a aprender a delegar. Na cozinha e em casa. “Eu só tive dificuldade de encontrar pessoas que fazem tão bem ou melhor do que eu...”, ri. Então, em vez de citar técnicas de culinárias, hoje nas mãos do Ulisses, “um subchef incrível”, prefere falar da vida com as crianças. “As mães acham que ninguém cuida tão perfeitamente como elas fazem. Não troca direito, não dá banho direito, não veste a roupa direito... Isso é resquício de décadas nessa função.” O comentário revela a mulher moderna que criou um modelo de vida para que possa ser cozinheira e empresária, além de cuidar dos filhos. Tudo isso, sem enlouquecer. Bel Coelho, 37 anos, casada com o produtor musical Rica Amabis, é uma mulher conectada ao

“Aprendi a ter mais serenidade para ajustar o foco. A gente não dispersa tanto, é engraçado...”

tempo em que vive – com um discurso coerente a ele. “Hoje há diferença em relação à mãe do passado. Mas ainda não vejo uma evolução. A gente tem um papel importante que é transformar a paternidade. Não dá para facilitar para o homem. E eu não estou querendo ser a feminista, de jeito nenhum.” Bel defende que o homem vive sem uma culpa causada pela relação visceral entre mãe e filho. “Esse compromisso orgânico só vem com o cuidar. Quando ele cuida, tem a necessidade de cuidar cada vez mais.” Então, conclui: “Eu sabia que queria a maternidade, mas não tinha ideia de como ela ia se dar na prática. Trabalho mais do que achei que iria, mas conquistei uma autonomia que não tem preço”.

 

*Este texto foi publicado originalmente na revista Sabor.club #05 que está na melhores bancas por todo Brasil. E também na banca digital www.zinio.com.Ou assine clicando aqui sabor.club/assine

 

Leia também