- Pedro Kuperman

Pedro Kuperman

Semente da esperança

Documentário mostra como a valorização do pinhão muda a vida da agricultura familiar, em Santa Catarina

Patrícia Moll - Publicado em 04/09/2018, às 09h00

INVERNO EM URUBICI, ZONA RURAL DE SANTA CATARINA. ESTOU NA CASA da família Oliveira, para produzir o curta-documental Fortaleza do Pinhão da Serra Catarinense. Faz frio, muito frio. Nesta época do ano, a temperatura por aqui bate os 10 graus negativos, período no qual a terra dá menos e a comida parece cair do céu.

É no tardar do outono que as araucárias angustifolias, o pinheiro brasileiro, já estão repletas de pinhas, uma esfera formada por dezenas de pinhões ligados uns aos outros. Exatamente ao sol do meio-dia, quando a temperatura sobe, o orvalho da manhã armazenado dentro da pinha esquenta e o calor faz com que a esfera exploda, espalhando pinhões num raio de até 50 metros de distância.

Como a floresta de araucárias aqui ainda é grande, embora hoje só ocupe 3% da sua cobertura original, a semente é o principal produto da agricultura familiar, especialmente nesta época do ano. Mas não o pinhão, que se espalha pelos bosques e vira comida para os serelepes (o esquilo brasileiro) – que, aliás, são os responsáveis por reflorestar a área.

Para guardar comida para os dias mais frios, os bichinhos enterram as sementes e depois esquecem o ponto exato onde as deixaram. Na estação seguinte, a semente começa a brotar.

No caso dos Oliveira e de outros agricultores locais, eles usam uma espécie de gancho preso aos tornozelos para escalar a araucária, a árvore mais alta da floresta (uma vez que a sua copa vai buscar o sol acima de todas as outras), e buscar as esferas de pinhões, que depois são consumidos por eles, vendidos para os comerciantes e também beneficiados pelas famílias para venda de produtos locais.

O objetivo do filme é revelar o dia a dia dos Oliveira e mostrar como a atuação da Slow Food Brasil, entidade para qual trabalho voluntariamente, impacta diretamente na vida deles. Assim como na realidade de tantos outros.


É com café (que ameniza o frio que faz, mesmo dentro da casa simples onde vivem), biscoitos e roscas típicas, que descubro que o casal Lucimar e José Gedeoni de Oliveira viu o preço do pinhão subir cerca de 300%, depois que o Slow Food chegou ali, há cerca de dez anos. Na época, eles ficavam totalmente à mercê dos intermediários e vendiam o pinhão por um preço muito baixo.


A organização sem fins lucrativos, de origem italiana, defende o alimento bom, limpo e justo para todos. Entre suas principais atuações estão o mapeamento de alimentos nativos ameaçados de extinção cultural e ambiental. A articulação dos projetos que ajudam agricultores familiares, extrativistas e pescadores a encontrarem caminhos para resolver suas dificuldades, potencializar seus cultivos e conectá-los com mercados alternativos.


Vi de perto 20 famílias trocarem dúvidas, experiências, receitas, sementes e profissionalizarem a produção, ao desenvolver uma máquina que descasca e mói o pinhão já cozido, que depois é embalado, congelado e distribuído pelo Estado – e vira ingrediente até de cerveja! Hoje, por exemplo, a coleta representa 30% da renda dos Oliveira.

No convívio com eles, foi uma delícia provar o pinhão de tantos jeitos diferentes!

Me encantei com o clássico, tostado na chapa do fogão a lenha, e com a famosa sapecada, tradição que passa de geração em geração. Primeiro, eles sobem na araucária. Então, juntam as sementes e as grimpas (os ramos secos). Aí, ateiam fogo em tudo.

A grimpa queima rápido, a temperatura sobe, o pinhão estala, começa a sapecar e, em um instante, fica pronto. Para comê-lo, basta apertar a sua pontinha, que ele se desprende da casca com a maior facilidade.

O ritual espanta o frio e é um momento de pausa e diversão para essa gente que começa o dia de madrugada na ordenha das vacas, passa para a roça e mal tem tempo de desfrutar o esperado solzinho da tarde. No fim de semana, a família também descansa unida. Na convivência com os Oliveira, participamos de jogos de cartas após o jantar, proseamos sem parar. Muitas vezes, durante as refeições, sempre alegres e fartas. Jamais me esquecerei da paçoca de pinhão com carne de porco, prato mais emblemático da região, preparado com carinho por Lucimar e suas filhas.

Elas fazem ainda pão de pinhão e tantas outras receitas, mostrando a versatilidade do produto. A comida, por incrível que pareça, faz a neve que, sim, costuma cair por aqui, virar um mero detalhe.

Depois da temporada com a família Oliveira, percebi que havia realizado uma das viagens mais inspiradoras da minha vida. Em tempos políticos difíceis, de resistência ao uso indiscriminado de agrotóxicos, é uma grande esperança ver como é possível ter uma vida viável no campo, manter as gerações mais novas por lá e ajudar não só na perpetuação, mas no crescimento da agricultura familiar.

* O Copinhão, Santuário das Árvores, faz parte do Clube Sabor.club #11. Quer receber este e outros produtos cuidadosamante selecionados pela Sabor.club?  Assine aqui.