Roberta Lima foi fazer pão de mel para combater momentos difíceis que passou. Hoje, está realizada, com um produto cheio de personalidade - Fotos: João Masini

Roberta Lima foi fazer pão de mel para combater momentos difíceis que passou. Hoje, está realizada, com um produto cheio de personalidade - Fotos: João Masini

Roberta Lima: do amargo para o doce da vida

A doceira Roberta Lima encontrou no pão de mel força para enfrentar a depressão

Klester Cavalcanti - Publicado em 03/12/2018, às 15h00

O ANO DE 2016 COMEÇOU de forma terrível para Roberta Lima. Aos 42 anos, ela trabalhava no setor comercial de uma empresa de locação de impressoras e copiadoras, em São Paulo. Estava casada com o diretor da companhia e via o relacionamento ruir aos poucos. Era seu segundo casamento, ela já tinha um filho, Lucca, da primeira relação, e admitir mais um fracasso na vida amorosa causava-lhe dor e tristeza. Para piorar tudo ainda mais, o casamento teve um final conflituoso, culminando na saída de Roberta da empresa, numa decisão tomada de comum acordo entre ela e o então marido e executivo da firma. A ideia de continuar trabalhando juntos, após a separação, não agradava a nenhum dos dois.

“Ter de recorrer a medicamentos me deixava ainda mais triste.” E, aos poucos, ela foi encontrando um caminho bem mais agradável para adoçar seus dias amargos: “Comecei a fazer pão de mel, principalmente para ocupar minhas horas livres”

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Separada, desempregada e sem perspectivas, ela foi acometida por um mal que assola cada vez mais pessoas nos dias atuais. Entrou em depressão. “Fui a um psiquiatra e passei a tomar remédios. Mas aquilo me incomodava muito”, lembra. “Ter de recorrer a medicamentos, me deixava ainda mais triste.” Aos poucos, ela foi reduzindo a medicação até encontrar um caminho inusitado e bem mais agradável para adoçar seus dias amargos: a gastronomia. “Comecei a fazer pão de mel, principalmente para ocupar minhas horas livres.” Além de servir como uma excelente terapia no combate à depressão, a atividade ganhou força.

 

Todo mundo que provava o pão de mel da Roberta adorava. “Amigos faziam encomendas pequenas, de 20, 30 unidades, para festinhas. Eu fazia, ganhava uma grana e ainda me divertia”, conta. Um dia, ela levou uma caixa do doce para o salão de beleza onde faz as unhas. Sucesso total. Várias clientes do lugar fizeram encomendas. Trabalhando sozinha, Roberta ia se virando como podia. E aprimorando a receita, elaborando novos sabores. Até criar, com a ajuda do irmão, Leonardo, o nome da sua marca de pão de mel: MelAmor. “Para mim, o amor sempre foi a base de tudo. Inclusive, da minha paixão pela comida”, explica ela, que desde pequena fazia docinhos em casa para a família e para as amigas.

O maior pedido que recebeu, no início da MelAmor, foi de uma executiva que frequentava o mesmo salão de beleza. A mulher encomendou 240 unidades. “Ela perguntou se eu atendia a pedidos grandes. Falei que sim, mesmo sem nunca ter feito nada parecido.” Para atender a demanda, Roberta teve de virar duas noites trabalhando, sem dormir. Valeu a pena. A cliente aprovou e indicou para outras pessoas. Os pedidos ficaram cada vez mais constantes. E aí, justamente quando a MelAmor estava virando coisa séria, Roberta teve de dar uma parada no negócio. É que, logo após a separação, ela tinha comprado um pacote de intercâmbio em Malta, belíssimo arquipélago fincado no Mar Mediterrâneo, onde iria estudar inglês. “Como já estava tudo pago, eu não poderia deixar de ir.” E, advinha, o pão de mel foi com ela para Europa.

Em Malta, além de aprimorar o inglês, ela trabalhou como garçonete e ajudante de chef. Acumulava, assim, mais duas atividades no currículo de quem começou a trabalhar aos 14 anos, como auxiliar de dentista, e já tinha atuado como representante de vendas, assistente comercial, divulgadora de produtos em supermercado e secretária executiva. “Sou de família humilde e sempre precisei trabalhar para poder comprar minhas coisas.” Filha de um funcionário público com uma dona de casa (Reginaldo, 62 anos, e Isabel, 60), foi com a mãe que ela aprendeu a cozinhar. Aos 8 anos, já sabia fazer arroz. A paixão pelos doces se firmou na adolescência, quando fazia brigadeiro e beijinho para as festas das amigas. Mas foi da avó materna (D. Albertina, já falecida) que herdou a mão boa para preparar pão de mel. “Ela fazia um pão de mel maravilhoso. Eu ficava de olho, para aprender.”

A doceira herdou o dom – e a receita! – para fazer o pão de mel maravilhoso da avó, D. Albertina. Mais tarde, depois de um curso de barista, descobriu que o café na massa era o toque de personalidade que ela tanto procurava

Mesmo longe do Brasil, Roberta não esquecia a MelAmor. Em Malta, preparava o pão de mel para os amigos – eles gostavam tanto que faziam vaquinha para ela comprar os ingredientes.

De volta o Brasil, matriculou-se num curso de barista – o café é outra de suas paixões. Ao ver a enorme quantidade de misturas de café com leite que era desperdiçada no curso, ele pediu para levar um pouco do preparo para casa. Foi atendida e acrescentou a mistura ao seu pão de mel. Voilá! “Ficou perfeito. Realmente, incrível. Percebi que eu tinha encontrado o que eu tanto buscava: um diferencial, algo só meu”, relembra, destacando o fato de que o café não é um ingrediente comum em pães de mel.

A partir daí, passou a trabalhar em um plano de negócios e, o mais importante, na busca pelos produtores ideais para cada um dos ingredientes que utiliza. O leite e a manteiga, por exemplo, são produzidos em Minas Gerais, enquanto o mel vem do interior de São Paulo. Os únicos ingredientes importados são o chocolate belga e o café, plantado na Colômbia. A seu favor, Roberta ainda tem um aguçado tino para marketing. Ela costuma oferecer, de cortesia, seu pão de mel em locais onde sabe que pode haver repercussão. Como fez, no início de tudo, no salão de beleza e, depois, no próprio local onde fez o curso de barista.

Hoje, já produziu até linha especial para companhia aérea. Com se vê, dois anos depois de passar pela fase mais difícil e dolorosa da vida, Roberta Lima agora está leve, em voo de cruzeiro. É o lado doce da vida.

 

Este texto foi publicado originalmente na revista Sabor.club #22 que está na melhores bancas por todo Brasil. E também na banca digital www.zinio.com. Ou assine clicando aqui sabor.club/assine

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