Espirituoso e criativo, chef de icônico restaurante francês, Raphael Despirite virou um divertido corregedor de modismos culinários, na internet - Fotos: Fernando Eduardo

Espirituoso e criativo, chef de icônico restaurante francês, Raphael Despirite virou um divertido corregedor de modismos culinários, na internet - Fotos: Fernando Eduardo

Raphael Despirite, o chef da Internet

As faces do chef Raphael Despirite e de seu alter ego que é sucesso na internet

Cíntia Bertolino - Publicado em 17/03/2019, às 12h00

Quando não está no “sufoco”, tocando a cozinha do Marcel, em São Paulo ou preparando alguma edição do seu pop up Fechado para Jantar, o chef Raphael Durand Despirite navega pelas redes sociais com senso de humor mordaz. Suas tiradas engraçadas são usadas para apontar idiossincrasias de neocríticos de gastronomia e foodies em busca de algum obscuro modismo culinário –importado de alguma uma metrópole distante.

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Usuário pesado “do capeta”, nome que deu ao Instagram pelo tempo e atenção que ele demanda, Despirite costuma divertir seus seguidores ao satirizar os anseios das “vítimas gourmet”, como define. Para isso, chegou a criar um alter ego, o Robertinho, o menino foodie que sofre, ou melhor, “vive um drama”, com as pequenas derrotas gourmet do dia a dia. Os sofrimentos de Robertinho giram em torno da tia que decide fazer salpicão com cream cheese no Natal; da morte de seu levain, “artesanato em forma de massa”, ou mesmo da impossibilidade de ser feliz depois de comer sushi no Japão com wasabi ralado na hora.

 

 

“Ficam me mandado umas mensagens com absurdos gastronômicos como se eu fosse da corregedoria das panelas”

Dez anos atrás, Robertinho não teria tantos fãs. O interesse pela gastronomia que vinha crescendo consideravelmente em meados dos anos 2000, explodiu com a popularização das redes sociais e a avalanche de fotos e recomendações de pratos e restaurantes. Nesse universo peculiar, Despirite usa o bom humor para espinafrar a gourmetização: “É um fenômeno engraçado. As pessoas não conseguem mais fazer nada com simplicidade”. O lado b de ter virado quase um chef influencer é a quantidade de mensagens que recebe com receitas, digamos, inusitadas como o ovo de Páscoa de coxinha: “Pessoal fica me mandado umas mensagens com absurdos gastronômicos como se eu fosse da corregedoria das panelas... Eu só sofro junto, não há o que fazer.” O curioso é que, se de fato existisse uma “corregedoria das panelas”, ele seria um bom candidato a corregedor.

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Com formação de cozinha francesa clássica (terminado o ensino médio ele foi estudar no liceu culinário Ritz Escoffier, em Paris), Despirite está à frente do Marcel, fundado em 1955, por seu avô, Jean Durand – contemporâneo do grande chef Paul Bocuse. Despirite diz que a morte do lendário chef francês o tocou além do esperado, por resgatar a memória do avô e lembrá-lo das razões de ter escolhido ser cozinheiro. “Bocuse para mim representava a generosidade, a arte de receber. Ele aproximou as pessoas da gastronomia.

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Com o passar dos anos, a cozinha de bistrô francês tradicional do Marcel foi ganhando em leveza e modernidade, sem fugir ao receituário clássico. O plano para os próximos anos, aliás, é incorporar pratos que fizeram parte da história do restaurante: “Cada vez mais quero resgatar o que meu avô fazia”.

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Apesar da imensa responsabilidade de tocar, e manter o padrão, de um clássico da cena gastronômica paulistana, em 2012, esse corintiano colecionador de álbum de figurinha da Copa do Mundo, começou a acalentar a ideia de abrir um restaurante com um estilo de comida mais moderno. Nessa mesma época, enquanto procurava um apartamento para morar no centro da Paulicéia, teve um estalo. “Encontrei um apartamento tão legal que fiquei pensando como seria fazer um jantar ali. Alguns dias depois, peguei umas mesas emprestadas no Marcel, chamei a banda de jazz de uns amigos e assim aconteceu o primeiro Fechado para Jantar”. O evento foi um sucesso e não para de crescer (veja quadro). “Depois dessa experiência, me liguei que o formato era muito legal. A ideia de organizar um jantar em lugares da cidade que as pessoas não imaginam que poderia rolar algo assim, além de reunir um monte gente diferente, sentando junto se conhecendo ali, era demais.”

“Com o tempo, fui percebendo que não interessa ficar falando a quantos graus o peixe foi cozido”

Nos últimos anos, a ideia do convívio tem norteado seu trabalho. “Com o tempo, fui percebendo que não interessa ficar falando a quantos graus o peixe foi cozido. Comecei a pensar na comida como um fio condutor da convivência, do prazer das pessoas à mesa.”

Marcel – R. da Consolação, 3555, Jardins, São Paulo - SP. Tel.: (11) 3064-3089

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