Pretinho e o mentor e amigo Igor Renovato. Ao lado, o Antelo, de sua autoria -

Pretinho e o mentor e amigo Igor Renovato. Ao lado, o Antelo, de sua autoria

Pretinho Cereja: o bartender sensação no Rio

De comunidade casca-grossa no Rio, ele foi feirante e peão de obra até fazer sucesso na cidade

Pedro Landim - Publicado em 26/11/2019, às 16h00 - Atualizado às 16h29

O chacoalhar ritmado das coqueteleiras e o tilintar de colheres bailarinas foram trocados naquela noite pelos chocalhos e agogôs da Estação Primeira de Mangueira, na primeira vez que Pretinho Cereja, 23 anos, pisou na quadra da escola para cantar, na letra do samba que se tornaria campeão do Carnaval 2019, o enredo de sua vida: “Brasil, meu nego, deixa eu te contar a história que a história não conta, o avesso do mesmo lugar, na luta é que a gente se encontra”.

No retrato de um país desigual, o jovem nascido em Parada de Lucas, comunidade cascagrossa na Zona Norte do Rio, levou a nota dez em cadência, evolução e harmonia. Antes de ganhar o apelido criando drinques com licor de cereja, Pretinho era Douglas Henrique, ex-feirante que conheceu o lado rico da cidade como ajudante de pedreiro na obra de um bar, e acabou do lado de dentro do balcão, bartender destacado na comissão de frente do premiado Garoa Bar Lounge.

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Ele é o responsável pelo balcão principal da nova casa de dois andares em Ipanema, filial do bar inaugurado em 2016, no Leblon. Na carta homenageia o Caminho de Santiago, numa referência não só ao lugar onde fica o Garoa origial, mas a peregrinação do menino que precisou deixar a escola aos 12 anos para pegar no batente.

“Uso o vinho numa remissão a parte francesa do Caminho. E misturo com as frutas que eu mais gostava nos tempos em que provava todas de madrugada, montando barracas. E depois vendia limão na feira.”

Assim nasceu o Pamplona, um dos mais pedidos com a mescla de vodca, mix de cítricos, licor Saint Germain, e vinho rosé infusionado com morangos. De feição mais encorpada, o Antelo mistura gim, cognac, vermute infusionado em café, Fernet e licor Luxardo.

As composições estão muitas léguas distante da iniciação precoce nos destilados, quando a molecada da comunidade se reunia na rua para beber refrigerante com rum. “Só fui ouvir falar em cuba-libre dez anos depois!”

O espaço livre das ruas lhe é sagrado, e Pretinho não demora a propor ao repórter da Sabor.club uma cerveja com frango à passarinho no boteco da esquina, para esperar o amigo e ‘mentor’ Igor Renovato, chefe da equipe no Garoa e um dos responsáveis por sua entrada do universo da mixologia. Premiado no Rio, com currículo igualmente sui generis que inclui a La Cicciolina, extinta casa de shows eróticos em Copacabana, Igor aparece para o brinde e define Pretinho em uma frase: “É aquele que conserta relógio debaixo d’água com luva de boxe”.

O outro nome que abriu portas foi Walter Garin, barman conceituado e professor de coquetelaria, que estava à frente do Alice, o tal bar que o ex-pedreiro ajudou a erguer. “Confiavam em mim e me deram a chave da casa. Foram oito meses de obra e eu procurava ajudar em tudo. Construí o balcão e as prateleiras, e foi empolgante ver as bebidas chegando. Aí o Walter me chamou para trabalhar no bar, arrumando e lavando copos. Acabei fazendo todos os cursos dele.”

O novo sonho que está prestes a ser realizado é uma carta de drinques para o bar que a mãe vai abrir em Parada de Lucas, algo diferente de tudo que existe na região. Simples e barata, de acordo com o público, mas sem abrir mão de clássicos como o Old Fashioned, seu drinque favorito. O rum com Coca-Cola está com os dias contados.

Garoa – R. Prudente de Morais, 1810, Ipanema, Rio de Janeiro – RJ. Tel.: (21) 3264-7760

Bons drinques

A matriz espanhola faz sucesso há 11 anos na cidade de Santiago de Compostela. Por aqui, o Garoa segue o mesmo conceito: dança, paquera e coquetelaria feita com esmero. Tanto que a casa não serve frituras porque diz que elas comprometem o sabor das bebidas. A carta tem muito gim, além de criações autorais que não decepcionam.

 

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