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Pimenta mais forte do mundo tem a ardência do gás usado para dispersar multidões

Nosso repórter provou a Carolina Reaper, linda por fora mas guardando "um pacote de maldade no interior"

Pedro Landim - Publicado em 26/10/2020, às 14h00

Tudo começou num ótimo restaurante de comida do sudeste asiático em Buenos Aires, o Sudestada, de inclinação vietnamita. Foi ali que este repórter descobriu, para além dos clichês, que dor e prazer são dois lados da mesma moeda quando o assunto é pimenta em níveis, a princípio, assustadores.

“Sim, o meu Pad Thai pode ser no padrão da casa”, foi a resposta ao garçom, que sugeria a versão de picância moderada.

 

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A partir daí, a lembrança traz gotas de suor escorrendo por trás da orelha, a respiração controlada numa espécie de transe, e uma garrafa gelada de Sauvignon Blanc secando em minutos, sem causar alterações aparentes no cérebro que trabalhava em outro plano – algo bem parecido com a felicidade.

Na época, Carolina sequer tinha nascido. E eu ainda não sabia que pimenta brava libera endorfina e satisfação, conforme há provas na ciência. A mesma substância da euforia gerada pelo exercício físico, mas com movimentos apenas de garfo e faca.

Carolina? De certo não é aquela da música do Seu Jorge, mas é igualmente “uma menina bem difícil de esquecer”. Rima, inclusive, com capsaicina, a substância por trás da ardência que mora na polpa, nas sementes e veios dos frutinhos coloridos que põem fogo na boca.

 

O paulista Fábio Tuma é a versão brasileira do americando Ed Currie, o homem que inventou a Carolina Reaper, a tal pimenta nuclear 

 

 

“Ela é linda por fora mas guarda um pacote de maldade no interior”, diz o cultivador americano Ed Currie, da Pucker Butt Pepper Co, na Carolina do Sul, o inventor da Carolina Reaper, a pimenta mais ardida do mundo, desde 2013 no livro Guinness dos recordes.

A concentração de capsaicina nessa pequena redonda, vermelha, enrugada e áspera, com uma cauda que se projeta em forma de ferrão, é praticamente a mesma do gás de pimenta usado pelas forças de segurança pública para dispersar multidões. Para efeitos de comparação, enquanto a nossa conhecida malagueta chega a 100 mil unidades de calor na escala de Scoville, que mede a ardência das pimentas, a Carolina vai a 2,2 milhões.

Estava escrito nas estrelas do céu da boca que nossos destinos um dia se cruzariam, e o encontro com a “Ceifadora” veio em sua forma pura e desidratada, um pó vermelho de perfume destacado e alta periculosidade, guardado em pequena ampola de 10 gramas. Ela chegou envolta em plástico bolha numa caixa de palelão, diretamente de Monte Alegre do Sul (SP).

Havia no prato uma sopa de ervilhas com toucinho onde ousei desferir duas pitadas, misturando rapidamente antes da colherada. Talvez pela emoção, uma pequena engasgada me fez tossir com a garganta em chamas, e precisei andar um pouco pela sala para acalmar o espírito, e enxugar o suor.

Há muito a evoluir, é uma jornada pessoal. Talvez não ao ponto de fazer da pimenta um esporte radical, como no caso do paulista Fábio Tuma, que plantou minha Carolina. Versão brasileira de Ed Currie, o empresário é o maior conhecedor no país das chamadas “pimentas nucleares” (com mais de 1 milhão na escala de calor), e cultiva no interior de São Paulo mais duas variedades explosivas: Trinidad Scorpion Moruga e Bhut Jolokia, também conhecida como Ghost Pepper.

 

 

Além de fornecer capsacinia para as forças armadas, Fábio vende as pimentas frescas pela internet, além de molhos e embutidos como o “salame nuclear dinamite”. Há também geleias, balas e um pirulito que faz o pessoal lacrimejar em vídeos no YouTube.

Fábio desafia os clientes a ficarem cinco minutos com o ‘doce’ na boca. E aparece devorando pimentas como se fossem morangos, incluindo Carolinas inteiras. Perde a voz, soluça mas segue em frente, enquanto amigos se contorcem.

Vale registrar que o tempo e a prática deixam mais resistente o pimenteiro, porque os receptores se acostumam, numa espécie de anestesia que estimula o vício. Não sabemos onde isso tudo vai parar.

 

Pimentomêtro

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Foi em 1912 que o químico americano Wilbur Scoville desenvolveu um método para medir o nível de ardência misturando pimentas moídas com açúcar e água. Um número foi dado a cada pimenta, baseado em quanto ela precisou ser diluída até que os provadores já não pudessem sentir o calor. Atualmente, utiliza-se um crimatógrafo líquido que determina com precisão os níveis de capsaicina, e os resultados são adaptados para a escala de Scoville, que se mantém como referência.

 

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