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Padaria do carioca Gabriel da Muda dá samba e outras bossas

Músico celebrado no Rio abre empório com vinhos naturais e caprichada coleção de produtos artesanais

Pedro Landim - Publicado em 01/07/2021, às 12h54

Recostado no banco de madeira sob a marquise, em manhã carioca de chuva e vento (daquelas em que dá uma vontade enorme de comer algo quentinho), Gabriel da Muda bebe seu café coado de celular no ouvido. Vem dali um samba que ele cantarola. "É a Bahia de Todos os Deuses, do Salgueiro. Vendo aqui o tom porque vou gravar numa parada aí com um amigo. Mas que garrafa vamos abrir hoje para beber?"

 

 

Diante de um flat white na xícara e um cookie macio, lembro da primeira vez que entrevistei o personagem carioca único, e lá se vai uma década, para falar sobre o jovem cavaquinista e cantor tijucano que semeava rodas celebradas como o Samba do Trabalhador e o Samba do Ouvidor, admirado por nomes como o parceiro Moacyr Luz e o saudoso Aldir Blanc, e conhecedor como poucos os botequins da cidade, alguns com petiscos no cardápio batizados em sua homenagem.

Volto ao presente quando ele me chama para conhecer a estante de vinhos "naturais" que selecionou com faro de explorador, já frequentada por connoisseurs como o músico Ed Motta, com quem não demora a trocar mensagens e dar risadas pelo telefone.

 

 

A hora do almoço se aproxima e estamos na Fabro, pequena padaria e mercearia que guarda tesouros no Shopping Open Mall, espaço aberto da Barra da Tijuca. É a estreia de Gabriel Cavalcante ("Da Muda", pela região onde nasceu) em palco inédito: um negócio de gastronomia para chamar de seu.

Aos 35 anos e com 55 mil seguidores no Instagram que é comida do início ao fim, o músico cumpre o destino de quem, adolescente, já era intérprete do tradicional bloco Nem Muda Nem Sai de Cima, e hoje é respeitado tanto pelos músicos da Velha Guarda como pelos grandes chefs.

"Minha busca de qualidade e coerência artística, nas diferentes fases da vida, mantenho na gastronomia. Sempre busquei compositores menos conhecidos, e faço a mesma coisa com os pequenos produtores, um trabalho de formiguinha que traz muita alegria. Não abro mão de raiz e autenticidade", diz Gabriel.

 

 

A essas alturas, já aterrissa na mesinha sobre as pedras portuguesas uma senhora pizza al taglio com a massa de longa fermentação, de abobrinha com queijo de cabra, fazendo "croc" na boca. A de scamorza defumada veio depois, com bela experiência nas taças: o vinho Y Tu de Quién Eres?, um tinto espanhol feito num crowdfunding de vinhateiros com uvas raras e ameaçadas de extinção.

"As pessoas falam que aqui tem um campo magnético. Você chega de manhã apenas para um café e sai de noite. É um perigo", brinca.

 

 

Partitura de pães 

A linha de pães sourdough da casa é feita com misto de farinha italiana e brasileira semi-integral moída na pedra na Fazenda Vargem, no cerrado goiano, e ampara crostinis como o de mortadela italiana com queijos parmesão e meia cura (destaque para ao toque de mostarda caseira).

Quem cuida dos pães, aliás, é a musicista e agora padeira Ana Rabello. Ela é filha de Paulo César Pinheiro - tido por muitos como o maior compositor vivo da MPB - e de Luciana Rabello, outra craque da música e irmã do inesquecível violonista Raphael. Ana já fazia pães em casa, aprofundou os estudos e o negócio da fermentação ficou sério, no melhor dos sentidos.

 

 

 

O cardápio de itens para levar, ou que podem ser consumido na casa traz queijos, conservas e charcutaria artesanal, além de massas, azeites, chocolates e temperos de caráter local e visão universal, a partir das experiências do Gabriel. Ele há muito viaja pelo Brasil e o mundo para tocar e comer, ingressou no mundo do vinho em Portugal, e só em Nova York esteve sete vezes cumprindo roteiros de sabor.

O papo avança pela tarde, e agora estamos diantes de empanadas de linguiça com queijo e chimichurri, provando cervejas da carta esperta do sommelier Pedro Barcellos, professor da Associação Brasileira de Sommeliers (ABS) e gerente da Fabro. A "banda" formada por Gabriel ao redor do balcão inclui também o barista Sharlin, figura conhecida pelo gin tônica na lata que lançou em blocos de Carnaval.

E não é que anoiteceu? Melhor pedir para embalar aquela baguete robusta que vi sair do forno mais cedo e prometi levar para casa. Na verdade, me esqueci de ir embora, porque a degustação parece não ter fim. E não foi por falta de aviso sobre o tal campo magnético...

 

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