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O melhor de Barcelona por Janjão Garcia

Uma volta pela história da gastronomia da capital da Catalunha

Janjão Garcia - Publicado em 25/11/2018, às 11h00

HÁ UNS 20 ANOS, NÃO HAVIA MÚSICA. Nas três últimas décadas do século passado, a osadía espanhola se revelou na gastronomia e tudo começou na política, com a morte do ditador Francisco Franco, em 1975. A partir daí, a Espanha acertava suas contas com o mundo contemporâneo, integrava-se à Comunidade Europeia e se preparava para as Olimpíadas de 1992. Ufa! Reformas urbanas, mucha plata rolando e turistas famintos encontrando o espírito renovador dos grandes chefs locais, liderados e estimulados por um basco genial: Juan Mari Arzak. Foi um bum!, que trouxe nomes como Ferran Adrià, Santi Santamaria, Martín Berasategui e tantos otros.

No vinho, a “nova Espanha” descobria a região do Penedès, plantava castas francesas como Chardonnay e Cabernet Sauvignon e permita que surgissem rótulos míticos, como o Clos L’Ermita, no Priorato. Não à toa, a movimentação veloz fez com que Barcelona se tornasse o maior centro produtor de equipamentos de aço inox para a indústria vinícola mundial.

Mas eis que o mundo, volta e meia, insiste em desabar. Adrià fechou seu renomado El Bulli em 2011, montou uma escola e centro de pesquisas em 2015, e os sinais de mudança ou adaptação estavam no ar. Eu não estava lá quando isso ocorreu, mas, na primavera de 2014, em San Sebastian, já observava que os bares de tapas estavam demasiadamente turísticos – sinal para nós que vivemos de tendências, que algo iria mudar.

No final do ano passado, retornei à cidade em grande estilo, a convite de amigos generosos. Jantares espetaculares com Pedro Subijana, do Akelarre, Berasategui, Arzumendi e, naturalmente, Arzak e sua filha querida Elena. Sem esquecer do maior asador del mondo, Victor Arguinzoniz, em seu restaurante das montanhas, o Asador Etxebarri. A alta cozinha contemporânea brilhava, mas já havia uma tendência no ar para atender turistas do pós-crise, a geração millenium e a valorização da matéria-prima sem gastos excessivos.

A revolução de Arzak & Adriá consolidou-se em sua faixa de mercado, deixou marcada que a Espanha está longe de ser conformista, mas era hora de uma onda menos molecular, de mais convívio à mesa. Por isso, agora em Barcelona, resolvi dar uma olhada nas tabernas, nos mercados, nas pessoas mais próximas dos produtos. Queria rever a tradição espanhola, a base daquela gastronomia, dar uma volta sem revolta.

Janjão Garcia é um dos nossos grandes conhecedores da boa mesa e dono dos ótimos Lorenzo Bistrô e da Casa Carandaí, no Rio.

 

Este texto foi publicado originalmente na revista Sabor.club #03 que está na melhores bancas por todo Brasil. E também na banca digital www.zinio.com.Ou assine clicando aqui sabor.club/assine

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