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Espalhada pelo Brasil inteiro, a abelha nativa Jataí produz um mel que você precisa conhecer

Ele tem corpo leve e complexidade aromática, com toques azedinhos e notas herbáceas

Pedro Landim - Publicado em 01/02/2020, às 19h56

Olhos verdes em corpo esguio e dourado, longas pernas traseiras e asas com reflexos de cor lilás, formando a capa agitada de uma super-heroína que não foge à luta, com inteligência e notável capacidade de adaptação para comandar seus exércitos nos mais diversos ambientes do país onde surgiu, e vive para proteger. Um pássaro? Nada disso. Tampouco avião. Ela é a Jataí, a abelha brasileira eleita porta-voz de notícias importantes na vasta linhagem das nativas e sem ferrão.

A ela já festejavam os índios guaranis, utilizando o distinto mel em rituais religiosos e terapias medicinais, e agora  são os chefs que vem se lambuzando com o mel que ela produz.

A ideia de produtores e biólogos não é apenas levar à mesa os aromas distintos do néctar da Tetragonisca angustula, como é chamada a Jataí nos compêndios científicos, mas ecoar em ambiente urbano a conclusão recente do Earth Watch Institute, respeitado centro de pesquisa e preservação ambiental: as abelhas são a espécie animal mais valiosa do mundo.

“A Jataí foi escolhida porque é a nativa mais democrática, comum em todas as partes do Brasil. Se adapta muito bem a diferentes territórios e condições naturais, inclusive no meio urbano das grandes cidades. As pessoas precisam parar de olhar as abelhas com medo e procurar conhecê-las. As indígenas são parte da nossa cultura”, explica Eugênio Basile, da Mbee, empresário que dedica a vida ao mel “de terroir”, trabalhando com diferentes espécies de abelhas na fazenda da familia em Atibaia (SP), além de estabelecer parceria com 40 produtores de mel de nativas de oito estados.

O mel da Jataí seduz pelo corpo leve, menor viscosidade e complexidade aromática. O líquido começa a fermentar ainda na colmeia, levando sabor azedinho e notas herbáceas ao paladar. Os diferentes sabores que resultam da fermentação estão entre as principais características dos produtos das Melíponas, as abelhas brasileiras sem ferrão (e portanto, inofensivas).

A vocação para a gastronomia encanta chefs com perfil de vanguarda como Ivan Ralston, Alberto Landgraf e Alex Atala, que já serviu sardinhas grelhadas com mel de Jataí. Em Curitiba, Manu Buffara instalou colmeias há um ano em seu restaurante. “Coloquei as caixas para mostrar às pessoas que não tem perigo nenhum. As abelhas nativas são dóceis e ajudam a polinizar a cidade”, diz a chef, que passou a trabalhar lado a lado com as Jataís.

Pioneira no trabalho com os meles, Manu costuma deixá-los fermentando por semanas na cozinha, fez menus inteiros a eles dedicados e sabe muito bem que é na preservação do ambiente natural que nossa pequena notável ganha superpoderes, porque sem a ação das abelhas é provável que nenhum tipo de comida chegue a qualquer prato. 

Os números dizem muito E vamos a eles antes de seguir as Jataís entre as flores e as colmeias que constroem aproveitando frestas em muros ou pedras, troncos de árvores, caixas de luz ou qualquer canto que lhes dê na telha.

As abelhas são responsáveis por polinizar e garantir a reprodução de 75% de todas as espécies vegetais cultivadas para a alimentação humana, e 90% de todas as plantas com flores na natureza, mais de 250 mil classes. É o contexto, segundo especialistas (veja quadro), em que as abelhas nativas cumprem função única na preservação da rica e variada flora brasileira. Elas fazem parte significativa do trabalho que as Apis mellifera, europeias que foram introduzidas no Brasil e dominaram a paisagem das Américas, não conseguem realizar.

É Eugênio Basile quem relata a cena corriqueira no cotidiano da fazenda, onde abelhas de todos os gêneros convivem com os diversos tipos de flores e plantas da rica paisagem natural:

“Temos muitas flores de lavanda e as nativas não estão nem aí, passam direto sem encostar, enquanto as europeias piram, porque fazem parte da mesma cultura. Da mesma forma, há um universo em nossas matas que apenas as indígenas vão polinizar.” 

As aulas que Eugenio ministra como professor convidado em cursos de gastronomia como o da faculdade Mackenzie, não raro terminam com o preparo de uma receita criada há mais de século pelos índios, tão simples como sedutora: palmito fresco e mel de Jataí.

Uma boa ideia para conhecer as peculiaridades do produto da abelha que melhor representa o fantástico mundo real das mais de 300 espécies com certidão de nascimento brasileira, como não deixam mentir os nomes de uruçus, mandaçaias, emerinas, iraís, jandaíras e tiúbas.

Entre os poderes das abelhas nativas, há um que torna super-heróis imbatíveis nos quadrinhos, mas atrapalha os insetos no momento em que sofrem com poluição, agrotóxicos e desmatamento: a invisibilidade.

“A função das abelhas na natureza é invisível e nosso primeiro pensamento é o mel, ou o receio da ferroada. Não pensamos nelas como polinizadoras das áreas naturais e cultivadas”, diz o biólogo Tiago Francoy, especialista em abelhas da USP. 

“As flores geram frutos e a reprodução das plantas que alimentam herbívoros, e estes alimentam os carnívoros. É a reação em cadeia que nos mantém vivos.” Então destaca a importância das nativas: “As plantas precisam de abelhas de tamanhos diferentes. A Apis é apenas uma espécie que chegou há 60 anos, enquanto as nativas são 500 e com milhões de anos de evolução no território”.