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O hipster e o peixeiro

A união dos dois transformou uma antiga peixaria no esconderijo foodie mais badalado da nossa capital da gastronomia

Da redação - Publicado em 01/02/2018, às 08h00

Era uma vez um habitué que faz amizade com seu peixeiro do coração e acaba comprando seu negócio. Aos 32 anos, convertido em psicanalista, Luis Fernando Santos usou todo o dinheiro que juntou como publicitário para salvar o amigo Antônio Kléber Carneiro da Silva e para revigorar a Peixaria Mitsugi, em São Paulo, fundada em 1971.

“Há dez anos vim explorar a Liberdade e acabei entrando na peixaria. Me apaixonei: que lugar é esse? Fiquei apaixonado pela estética do lugar, comprei uma bandejinha de sashimi e levei para casa. Quando pus na boca... Meu Deus! Nunca tinha comido coisa igual!”.
Para descobrir a Mitsugi, o sashimi lover precisou ultrapassar um estande de produtos naturais, outro de roupas made in China, um depósito. Chegou ao fim do túnel, ou melhor, do estranho corredor da galeria no número 364 da rua Galvão Bueno.

E viu luz. Luz que ainda reflete nos azulejos de um azul de outros tempos, mas que agora, não só ilumina uma loja de peixes, como, desde maio passado, um restaurante. Dos mais hypados da cidade. Somente com oito mesas, somente com sashimis que derretem na boca e são vendidos por quilo.

Seu Mitsugi não está por lá, morreu em 2012. Mas deixou um herdeiro: Antônio San. Ele chego de Igarapé Grande, interior do Maranhão, em 1996, e foi pedir emprego na peixaria. Começou arrumando caixas sem o patrão pedir, depois limpando peixe até conquistar a simpatia do japonês durão.Volta e meia, o via sussurrando com os fregueses nipônicos. Hoje, eles garantem que era sobre o reconhecimento à sua dedicação. “Seu Mistugi mal conversava em português. Mas dizia que gostava de trabalhar comigo porque quando ele estava nervoso eu não respondia. Eu também não entendia o que ele estava falando, como ia responder?”

Assim se passaram quinze anos até que o patrão o deixou cortar sashimi para alguns clientes. Então surgiu uma encomenda para o príncipe do Japão, em passagem pelo Brasil: “Limpei os peixes e ele disse: ‘você vai fazer uma bandeja de sashimi e eu vou fazer outra, se reclamarem, você já sabe’. Quando vieram buscar, ele avisou qual ele tinha feito. E não foi com maldade. Como não reclamaram, comecei a cortar todos os pescados”.

Hoje, decide na ponta dos dedos o que tem vocação para sashimi. Seus movimentos são cadenciados, bonitos de ver. “Não tem como explicar sashimi sem ser cortando. Tem que sentir o peixe, porque cada um tem seu traço. Só o toque sabe qual é.”


Peixaria Mitsugi - Rua Galvão Bueno, 364, Liberdade, São Paulo – SP. Tel.: (11) 3567-7670

 

* Esta reportagem foi publicada originalmente na edição #8 da revista Sabor.club. Para assinar, acesse http://sabor.club/assine.