Muito antes da onda de comida vegetariana e vegana, Nathalie Passos ela já valorizava os ingredientes naturais - Fotos: Tómas Rangel

Muito antes da onda de comida vegetariana e vegana, Nathalie Passos ela já valorizava os ingredientes naturais - Fotos: Tómas Rangel

Nathalie Passos: a jovem chef que encantou Malala Yousafzai

Aos 22 anos, Nathalie Passos despontou como referência em cozinha natural. Agora, indica a próxima onda

Matheus Vieira - Publicado em 31/05/2019, às 12h00

A CARIOCA NATHALIE PASSOS LEVOU UM SUSTO e tanto, em julho do ano passado. Faz tempo que ela se destaca, no Rio, como a cozinheira do restaurante natural mais inscensado da cidade, o Naturalie (a junção da palavra natural com o nome dela). Era um dia qualquer, quando percebeu que havia alguém muito especial no salão. Era Malala Yousafzai, a jovem paquistanesa, ganhadora do prêmio Nobel da Paz, pelo trabalho que faz ao educar meninas que, como ela, foram impedidas de estudar.

Nathalie não tem dessas personalidades festivas, postadoras de redes sociais. Ao contrário: é super-na-dela. Mas não resistiu e quebrou o protocolo equipe-cliente ao abordá-la e carinhosamente lhe oferecer um abraço. Deu e ganhou mais do que o afago de volta: descobriu que Malala, adepta da culinária vegetariana, ouvira falar bem do restaurante e fez questão de passar por lá, durante a sua visita à cidade.

 

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Tartar de banana, bife de feijão, salada de frutas com a famosa granola da Nathalie: gastronomia de qualidade

Em entrevista à Sabor.club, com um maço de legumes nos braços, ela não nega que sentiu uma ponta de orgulho por ver, mais uma vez, o trabalho reconhecido por fazer uma gastronomia de qualidade apenas com vegetais – de primeiríssima linha.

“Sou uma agricultora frustrada. E olha que eu nem tive infância na fazenda para justificar isso”

Ela ajeita as folhas e observa a consistência e a maturação da cenoura, da beterraba e do rabanete, com as mãos de quem tem uma familiaridade com o ingrediente que vai muito além da cozinha. “Sou uma agricultora frustrada. E olha que eu nem tive infância na fazenda para justificar isso”, ri. Quando foi para Mendocino, na Califórnia, trabalhava num hotel com horta, e tudo ia para a cozinha do restaurante. “Eu plantava alguma coisa e ficava lá esperando brotar. Mimava os vegetais.” Com os legumes crus nas mãos, não se contém: “São liiiiindos... Não dá vontade de morder?!”

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Nhoque de batata doce roxa, bechamel de amêndoas e pesto de ervas: toque vegetariano |em receita de família

Muito antes de tanta gente surfar a onda vegetariana e vegana, lá estava ela valorizando os seus queridos ingredientes. Foi assim que aprendeu nos Estados Unidos e vem aprimorando por aqui. O bechamel de leite de castanhas que ela faz, por exemplo, era um hit nos restaurantes onde ela trabalhou em Nova York, como o Dirty Candy (da chef Amanda Cohen, veja quadro) e o já fechado Pure Food and Wine. Aqui, no Naturalie, o molho branco encontrou o nhoque de batata doce roxa grelhado, que é uma receita de família. E leva uma camadinha de pesto por baixo que deixa a receita tão encorpada que agrada até os paladares mais resistentes ao vegetarianismo.

“A Amanda Cohen é uma grande referência para mim. Para ela, o vegetarianismo não é sobre evitar ingredientes, mas sim sobre usar tantos outros. E tomei esse discurso para mim. O que ela faz com o tomate, em diversas texturas, não é brincadeira.”

O que a Nathalie aprendeu em casa também é determinante na sua cozinha. Desde o bolo de cenoura, receita da mãe, até a batata calabresa, que acompanha o bife de feijão. “Uso uma cebola bem triturada e caramelizada por cima, que lembra uma carne moída de siri que meu avô fazia.”

Como se vê, a Nathalie é uma esponja quando se fala em cozinha. Assimila muita coisa e põe os seus dedinhos talentosos para melhorar tantas outras. O chef Alberto Landgraf, seu marido, é conhecido como um sujeito realmente rigoroso – quem conhece a cozinha dele, sabe disso. Sentimentos à parte, ele é um tremendo fã da cozinha da mulher. Volta e meia elogia, sem ela por perto. E mais: fala com muita propriedade, viu, Nathalie?

“O vegetarianismo não é sobre evitar ingredientes, mas sim sobre usar tantos outros”

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Um dos pontos dos quais ele tem orgulho de ver é a maturidade da jovem cozinheira de apenas 26 anos, que acaba de inaugurar mais uma unidade do seu Naturalie, agora em Ipanema, conectado com um conceito bem conectado com o que vemos em lugares como San Diego, na Califórnia. Aqui, há uma grande geladeira de grab & go (pegue e vá), que facilita a vida de muita gente. Com uma advertência: leve para casa, mas não se esqueça de que pode conzinhar também. “Você pode fazer algo legal sozinho, eu compartilho as receitas. É só me pedir.” E garante: sem esconder os truques que as fazem dar certo. Como os segredos da sua famosa granola, servida e vendida em potinhos na casa. Em breve, ele chegará aos supermercados, em mais uma nobre cartada da cozinheira.

 

*Esta reportagem foi publicada originalmente na revista Sabor.club #27, que está na melhores bancas por todo Brasil. E também na banca digital www.zinio.com. Ou assine clicando aqui  sabor.club/assine.

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