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Moquecas e paçocas do índio Curupeba nos banquetes de guerra dos tupinambás

A tribo que enfrentava os portugueses e ajudou a construir nossa gastronomia

Robert Halfoun - Publicado em 25/11/2020, às 17h30

Em tupi-guarani, o significado literal da palavra cururupeba é “sapo achatado”, daqueles que incham o papo quando coaxam. Mas também significa “diabo”. Era comum dar essa denominação a indivíduos coléricos e voluntariosos, como certamente era o caso dos índios tupinambás, então habitantes da região equivalente ao atual estado da Bahia. Estavam entre os primeiros a entrar em contato com os conquistadores portugueses que aportaram por lá em 1500.

Cururupeba era o nome indígena da ilha hoje conhecida como Madre de Deus, situada a 19 quilômetros de Salvador. Era ainda o nome de guerra do líder dos tupinambás daquelas paragens, que por muito tempo comandou a resistência aos avanços dos colonizadores. Cada vitória na luta contra os portugueses era comemorada com banquetes, nos quais Cururupeba e seus seguidores exibiam a variedade de técnicas e ingredientes da culinária indígena pilar original da gastronomia brasileira, formando um tripé com as influências africana e portuguesa. Nesta viagem pela história da nossa cozinha, o cacique bem que poderia ocupar o papel de protagonista mais ancestral.

 

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Sabe-se que as mulheres da tribo eram incumbidas de cultivar e preparar os vegetais, enquanto aos homens cabia a caça, a pesca e o fogo usado para assar carnes. Assim como os de- mais povos nativos da costa brasileira, os tupinambás tinham a mandioca como base da alimentação. O tubérculo costumava ser comido inteiro, assado ou cozido, ou como farinha (após secar ao fogo e ser ralado), servindo também para fazer diversos tipos de massas e pães. A tapioca – goma da farinha da mandioca – já era conhecida dos indígenas. Por último, mas não menos importante, a raiz era fermentada e usada para fazer bebidas alcóolicas. Os portugueses testemunharam e registraram diversos pileques coletivos movidos a uma beberagem chamada caxiri.

 

O milho era igualmente apreciado: assado em espigas, transformado em mingau, farinhas e até em forma de pipoca. Assim como a mandioca, o grão era usado para fazer uma bebida alcóolica, o cauim. Grande variedade de frutas silvestres complementava a dieta, incluindo mangaba, araçá, jabuticaba, mamão papaia, jenipapo, pequi e maracujá. O caju era um dos frutos favoritos: virava suco, entrava na composição de bolos e pães, era fermentado para virar uma espécie de vinho e tinha suas castanhas transformadas em farinha.

Peixes grandes e mamíferos, como porcos-do-mato, queixadas, veados, macacos e antas eram abatidos a flechadas. Os bichos costumavam ser assados inteiros, com pele e tudo, e depois destripados, pois as vísceras eram muito apreciadas.

Os métodos de preparação incluíam assados sobre brasas (em fogo de chão) e cozimentos em panelas de barro ou fornos subterrâneos, os chamados biaribis. Para conservar e preservar a caça, os tupinambás também secavam carnes e peixes, numa preparação chamada de moquém.

 

 

 

Não existem registros específicos sobre a relação de Cururupeba com a primitiva culinária de seus pares. Ele certamente degustou diversas receitas que, cinco séculos depois, continuam muito populares entre nós: pamonha, curau, a já citada tapioca, pirões (de milho e de mandioca), moquecas e cozidos de peixes e crustáceos, paçocas salgadas e até métodos de cozimento como os assados (vegetais, carnes e peixes) envoltos em folhas de bananeira. Técnicas e ingredientes incorporados, pouco a pouco, ao cotidiano dos colonizadores portugueses, mesclando-se e adaptando-se.

Entretanto, outra iguaria muito particular do cardápio tupinambá foi vetada, à força, pelos portugueses: a carne humana. Os combates entre as tribos eram frequentes, e os vencedores das batalhas realizavam rituais nos quais repartiam a carne dos prisioneiros, em festas regadas a muito caxiri e cauim. Em meados do século 16, Mem de Sá, então governador-geral do Brasil, decidiu enquadrar as tribos rebeldes e, usando de armas de fogo, capturou Cururupeba e o levou, amarrado e indefeso, a Salvador. Serviu como exemplo do que aconteceria a qualquer índio que ousasse enfrentar os colonizadores. A derrota, no entanto, não desandou o inevitável processo de mistura entre as culturas indígena e portuguesa, que passava pela cozinha.

 

 

Moqueca capixaba

(sem influência da culinária africana)

Ingredientes

- 1 kg de peixe fresco 

- 1 cebola picada 

- 4 tomates maduros picados 

- 2 maços de coentro  bem picados 

- 1 maço de cebolinha verde bem picada 

- 1 limão 

- 3 colheres de sopa de suco de limão 

- 3 colheres de sopa de azeite 

- Poucas sementes de urucum ou uma pitada da versão em pó (colorau) 

- Sal a gosto

 

Preparo

•Limpe bem o peixe, corte em postas e deixe em uma vasilha com sal e suco de um limão.

•Conserve ali por, pelo menos, uma hora 

•Separe a cabeça do pescado para o pirão

•Na panela de barro, coloque azeite, cebola, coentro, tomate e urucum   

•Em seguida, arrume  as postas do peixe uma  do lado da outra,  sem sobrepor 

•Não adicione água ou sal 

•Cozinhe em fogo brando e, quando abrir fervura, coloque uma colher de sopa de suco de limão. Tampe e não deixar ferver, caso contrário o peixe endurece 

•Dez minutos depois, corrija o sal e cubra com coentro picado 

•Tire do fogo e sirva na própria panela, acompanhada de arroz branco, pirão de peixe e molho de pimenta

 

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