Mariana Correa faz a fina confeitaria francesa na terra do doce de leite -

Mariana Correa faz a fina confeitaria francesa na terra do doce de leite

Mariana Correa leva a França para Minas Gerais, com uma confeitaria preciosa

A tartelettes com frutas da estação foi a responsável por virar a cabeça da Mariana Correa

Robert Halfoun - Publicado em 23/12/2019, às 10h00

A VIAGEM DE FÉRIAS, com o pai, era para a Itália. No meio do caminho, porém, havia uma longa conexão em Paris, quando ele resolveu fazer um tour relâmpago com a filha pela cidade onde tinha morado, anos antes dela nascer.

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Foi uma correria até entrarem na Stohrer, a confeitaria mais antiga da capital francesa, inaugurada no século 18. A parada então ganha cores de revelação para a menina que cresceu vendo as avós fazerem doce, no interior de Minas, e ajudando com gosto, sempre que dava.

A vitrine linda, ela conta, lhe impunha um desafio: escolher o doce que ia comer. Até os olhos baterem numa tartelettes de framboesa e fazerem um filme passar na sua cabeça. Ao ver as frutinhas visivelmente fresquíssimas, ela lembra das histórias que a mãe contava a respeito da época que, na França, ia para o campo colher o que a terra tinha acabado de oferecer. Algo comum por ali.

“Os franceses valorizam muito o que eles conquistaram, sentem um orgulho enorme pelo o que fazem. Em Minas é igual, só falta ligar as pontas”

Durante os tempos de colheita, é possível entrar nas lavouras, com um cesto debaixo do braço, enchê-lo e pagar pelo o que está lá dentro.

Mariana diz com uma certa doçura no olhar: “Eu achava aquela cena maravilhosa”. Até hoje a tartelette é o seu doce preferido, feito também, com perfeição, na sua La Parisserie, confeitaria em Beagá onde a gente come doces franceses, como se estivéssemos no seu país de origem.

A habilidade da confeiteira foi adquirida durante um longo período na Le Cordon Bleu, uma das escolas de gastronomia mais cultuadas da França. Ela foi para lá depois que largou o Direito e a ideia de ser diplomata porque era na cozinha, fazendo doces, onde ficava realmente feliz. Era para lá onde fugia todas as noites, após o expediente. Por que não, então, mergulhar de corpo e alma?

 

A tarte bardaloue é um clássico francês com base de pâte sucré e creme de amêndoas, coberta com pêras e um toque da chef: o nosso cumaru

De volta ao Brasil, demorou um tico até apresentar aos mineiros o que era a tal pâtisserie, da qual, claro, tinham ouvido falar, mas não tinham provado, de fato. É curioso dizer, mas a primeira casa de Belo Horizonte dedicada as doçuras da terra do Pierre Hermé foi a da Mariana. Como assim?

No fundo, o mineiro é muito parecido com o francês. Ao mesmo tempo em que leva a comida realmente a sério, é consideravelmente fechado no seu universo culinário. Que, falando em doçaria, tem um aspecto bem semelhante à francesa: as receitas tradicionais, feitas ao modo original, são pouco açucaradas. Seja uma compota na qual o gosto da fruta tem de sobressair até um doce de leite talhado, a ambrosia, que mal parece adoçada.

O motivo para isso é porque açúcar, mesmo na terra da cana, era caro no passado. Os portugueses ricos usavam em abundância, como na sua terra natal, os brasileiros pobres precisavam se conter. Doçura era uma questão social.

“A doçaria afetiva nunca saiu de mim. Por isso tenho buscado também algo mais autoral, com ingredientes daqui”

Ainda de olho no que se faz no país do chantilly e Mariana aplica muito bem por aqui, ela diz que o que a atrai na confeitaria francesa não são apenas as técnicas e os clássicos. Mas o olhar que o francês tem para ela. “Eles valorizam muito o que eles conquistaram, sentem um orgulho enorme pelo o que fazem. Em Minas é igual, só falta ligar as pontas.”

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A galette com frutas da estação e o chesecake com queijo Canastra: duas preciosidades que saem das mãos da Mariana

Essa conexão, para ela, tem surgido há pouco tempo, desde que começou a se dar o direito de olhar para dentro. “A doçaria afetiva nunca saiu de mim. Por isso tenho buscado também algo mais autoral, com ingredientes daqui.”

O cheesecake com queijo Canastra é um belíssimo exemplo do que ela fala. Tem uma elegância rara, com um gostinho muito familiar. Melhor ainda com uma geleia de fruta sazonal, coisa que, já sabemos, faz os seu olhos brilharem.

Falando nisso, é curioso perceber que o aspecto que mais atraiu a hoje confeiteira na tal tartelette reveladora, não foi o creme ou a ideia de algo açucarado, mas a fruta – que é doce mas nem tanto, não é Mariana? “Siiiim”, diz, meio encabulada.

Em tempo, sobre a viagem que fez para a Itália com o pai, ele a perguntou, na volta: “Do que você mais gostou nas férias, Mariana?”. E ela: “Da França”.

La Parisserie – Av. dos Bandeirantes, 1299, loja 27, Anchieta, Belo Horizonte – MG. Tel.: (31) 99227-8604

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