Lina Bo Bardi fazia intervenções artísticas na cozinha -

Lina Bo Bardi fazia intervenções artísticas na cozinha

Lina Bo Bardi mostra que comer é uma arte

Cozinheira de mão cheia, a arquiteta Lina Bo Bardi projetava a comida simples – e brasileiríssima – que fazia

Robert Halfoun - Publicado em 29/10/2019, às 14h00

RECENTEMENTE O MASP FOI TOMADO PELO BUZZ TARSILA DO Amaral, na maior mostra sobre a artista já feita no mundo. No meio das selfies incontáveis e do borburinho de “onde está a Abaporu?” (além da boa dose de cultura que aquela gente toda levou na veia, sem perceber), pouco se falava da casa igualmente modernista que abrigava a exposição. Muito menos da grande mulher que a projetou e nos deixou um legado arquitetônico e de design cujo valor é inestimável.

A romana Lina Bo Bardi (Achilina Bo, 1914-1992) era uma gênia. Ela chegou ao Brasil em 1946, depois de fazer uma resistência ativa ao nazismo na sua terra, e, já casada com o jornalista, historiador e crítico de arte Pietro Maria Bardi fez muitos amigos e amou o Brasil como poucos. Não só a nossa gente, as nossas coisas mas, acima de tudo, a nossa comida.

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Lina era uma comilona confessa e cozinheira de mão cheia, igualmente inventiva quando assumia as caçarolas. Numa galáxia muito distante da cozinha molecular, já servia o seu carbonara (uma de suas especialidades, vale lembrar ela era de Roma, o berço do prato) com pedras fumegantes dentro dele, para conferir notas tostadas ao prato. Chegou a colocar corante natural azul no arroz com camarões porque dava a ele um aspecto inusitado, quase gráfico. Lina projetava a comida. “Onde já se viu comer algo azul? Fica muito harmonioso, não?”, dizia.

Numa galáxia muito distante da cozinha molecular, Lina já fazia o seu carbonara com pedras fumegantes dentro dele

As receitas e os cardápios do almoços e jantares que servia na sua espetacular Casa de Vidro eram todos manuscritos em cadernos, com data e o nome do convidado ou convidados do dia. Pela sua mesa passaram artistas e políticos com postura mais humanista. O cineasta italiano Roberto Rosselini foi um dos seus comensais, o teatrólogo Zé Celso Martinez Corrêa, amigo de Lina, sempre estava por lá. E declarava: “A mesa dela é linda e cheirosa. A apresentação dos pratos e louças é arquitetônica.”

Foi com a arquiteta-cozinheira que ele descobriu os arrumadinhos, a buchada, a maniçoba (um cozidão brasileiríssimo, criado pelos índios do Pará, feito com folhas da maniva e carne de porco). Lina viajava pelo país, se encantava com os pratos e, de alguma forma, colocava a sua assinatura neles. Na verdade, ela fazia as suas intervenções em tudo, até em sanduíches. Eles ganhavam desenhos legendados com os ingredientes e a forma de prepará-los. Eram chamados de “pãezinhos grávidos”.

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Na mesa da Lina Bo Bardi, o rabanete vira carpaccio e o lombo de porco ganha molho de cerveja Malzibier e açúcar mascavo

Apesar das frases ácidas como a célebre “tenho horror a projetar casas para madames e sua conversa insípida de onde a piscina deve estar. Gosto é de fazer casas para o povo”, Lina tinha um bom humor impagável. Durante a construção do projeto que viria a ser o Sesc Pompéia, na capital paulista, houve uma rebelião dos 400 operários que trabalhavam na obra. Motivo: a empresa que fornecia marmitas havia trocado o feijão pela soja, alegando que ela é rica em proteínas. O que se falava entre os peões, no entanto, é que o grão causa impotência sexual. Ao saber da situação, Lina tratou de reincorporar o feijão ao cardápio e mais: promoveu um culto ecumênico “para tirar o mau-olhado da impotência sexual”.

Mais tarde, na inauguração da primeira parte do projeto, a arquiteta preparou uma festa lista, transformando tapumes em mesas sobre cavaletes e decorando-os com flores catadas nos jardins da região. Sobre elas havia um banquete de comidas regionais do Brasil, com cores variadas e nomes poéticos – uma verdadeira instalação.

Lina fazia as suas intervenções em tudo, até em sanduíches. Eles eram chamados de “pãezinhos grávidos”

Versão “careta” do arroz de camarão: ao estilo Lina Bo Bardi, ele ganha corante azul

A comida, como se vê, tinha espaço nobre na agenda da Lina. Ela dizia que era parte da sua abordagem antropofágica, referindo-se ao emblemático movimento da Antropofagia, criado por Oswald de Andrade, a partir da obra Abaporu (antropófago, em tupi-guarani), de Tarsila do Amaral. Está no Manifesto Antropófago, de 1928: “…somos capazes de deglutir as formas importadas para produzir algo genuinamente nacional…”

Como as poesias do Mario de Andrade, os quadros da Tarsila, os projetos marcantes da nossa Lina Bo Bardi naturalizada brasileira em 1952. Não só em ferro e concreto como em comida, na face pouco conhecida da autora de pratos como o pernil ao molho de Malzibier e açúcar mascavo.

 

Este texto foi publicado originalmente na revista Sabor.club #32 que está na melhores bancas por todo Brasil. E também na banca digital www.zinio.com. 

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