- Fotos: Heudes Regis

Fotos: Heudes Regis

Leite, ovo, manteiga e... sucesso!

Há 22 anos, Ângela dos Anjos e Sérgio Souto venderam o pouco que tinham para abrir uma creperia, em Recife. Hoje, têm um negócio de milhões de reais

Klester Cavalcanti* - Publicado em 02/11/2018, às 17h00

PARECE QUE FOI ONTEM. JÁ ERAM QUASE DUAS da madruga, depois de uma dura jornada de trabalho, quando, o então editor do jornal Diário de Pernambuco, o jornalista Paulo Goethe, me convidou para comer um crepe, prato tipicamente francês – em Recife! Era março de 1997 e achei insólita a ideia de comer um crepe naquele horário.

Até hoje, no entanto, agradeço ao meu ex-chefe por me apresentar a melhor creperia do mundo!

Não, não estou exagerando. Quer tirar a prova? Vá ao restaurante Anjo Solto e mergulhe numa fatia de Paris no Recife. A história da casa, inaugurada timidamente há 22 anos, começa com oito mesinhas de madeira (daquelas que se fecham), disputando espaço num corredor de 1,5 m de largura e clientes que se apertavam para circular pelo lugar. Havia gente que nem se importava de comer o seu crepe em pé, com o prato na mão.

Para começar o negócio, ele, ex-crepeiro em Paris, vendeu o contrabaixo, a máquina fotográfica e a moto. Ela, foi para os EUA comprar panelas boas e mais baratas

“Começar algo sem confiar no sucesso não faz sentido”, destaca Sérgio Souto, o sócio da Ângela dos Anjos – daí o inusitado nome da creperia.

Para abrir a casa, a dupla juntou todas as economias e colocou no negócio. Ele vendeu o contrabaixo, a máquina fotográfica e a moto. Amealhou a fortuna de... R$ 1.200 (o equivalente a dez salários mínimos da época). Ela tinha morado em Nova York e aproveitou que conhecia os achados da cidade, para usar o dólar a R$ 1 daqueles tempos saudosos, e trazer dos Estados Unidos, panelas e acessórios de cozinha.

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Juntos, eles aplicaram R$ 3 mil para colocar o Anjo voando, com apenas dois funcionários. Claro que, além da certeza de que possuíam uma boa ideia e da fé que tinham que daria certo, haviam sacadas, como o lugar onde ela ficaria. A Galeria Joana d’Arc, no bairro do Pina, era (e ainda é!) conhecida por receber um público alternativo, como músicos, poetas, jornalistas, publicitários e artistas plásticos. Na época, lá havia duas casas famosas na cidade: a Boato, totalmente underground, e a Guitarras, uma mistura de bar de rock com balada, na qual só eram servidas bebidas. Bingo: “Essa galera precisava de um lugar para comer e que servisse comida boa e barata!”, lembra Ângela.

De graça, o casal ganhou uma espécie de assessoria de comunicação espontânea. Com a enorme quantidade de jornalistas e publicitários circulando pela galeria, a creperia passou a colecionar reportagens feitas pelos clientes formadores de opinião, encantados com a novidade. “Como a gente não tinha grana para investir em divulgação, isso foi essencial para tornar a creperia conhecida”, define Ângela.

Rapidamente, afinal, o Anjo Solto se tornou o principal e mais célebre estabelecimento da Galeria Joana d’Arc. A cada ano, lojas de artesanato, de roupas descoladas, bares e restaurantes abrem e fecham no local, como que transitando em torno da creperia. Inabalável.

Nada disso aconteceria, no entanto, se não fosse o fator mais importante de todos: a boa comida. É aqui que fazemos uma ponte aérea Paris-Recife e voltamos mais um pouco no tempo. É 1982 e Sérgio é um jovem que adora música e estuda Engenharia Elétrica, para montar o equipamento de grandes shows. De repente, surge a oportunidade de morar em Paris, a convite de um casal de amigos. Ele não pensa duas vezes e vai. Começa a estudar música e Língua Francesa. Para ganhar uma grana, passa a trabalhar em creperias e padarias. É quando aprende a fazer crepes.

Quando volta para o Recife, quatro anos depois, chega fazendo uma das grandes especialidades francesas, como um francês. E, claro, pensa em abrir uma creperia.

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A massa do Sérgio é leve e saborosa, tão acertada que permite a composição com os recheios mais variados. Sabemos, o grande público adora propostas inusitadas. Ao todo, há 112 opções do cardápio (no início, eram 25), do camarão com damasco, rúcula e abacaxi à carne-seca com requeijão, provolone, amêndoa e salame.

Claro, também há os mais tradicionais. Todos feitos com ingredientes muito frescos e de procedência garantida. As compras do Anjo Solto são feitas nas feiras de orgânicos, direto de pequenos produtores regionais e em mercados públicos.

Hoje, a creperia já tem uma filial no bairro das Graças, e transformou uma aposta de R$ 3 mil num negócio de R$ 3 milhões. Serve 400 crepes por noite e emprega 43 pessoas.

Lembra daquilo que eu escrevi no início deste texto, sobre o Anjo Solto ser a melhor creperia do mundo? Não ache que é exagero, a minha opinião é bem fundamentada. Sou recifense, moro em São Paulo há quase 20 anos e já comi crepes em vários países, inclusive na própria França. E que me perdoem os conterrâneos de Descartes, Piaf e Mbappé, mas os crepes do Anjo Solto são, de fato, os melhores. Tá duvidando? Vai lá experimentar. Aposto que você nunca mais vai esquecer. Assim como eu não esqueço daquela madrugada quente, de março de 1997, quando lá estive pela primeira vez. Parece que foi ontem.

Anjo Solto – Galeria Joana d’Arc, Av. Herculano Bandeira, 513, Pina, Recife – PE. Tel.: (81) 3325-0862

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*O jornalista Klester Cavalcanti é o autor do best seller O Nome da Morte (Ed. Planeta, ganhador do Prêmio Jabuti) editado em 14 países e oito idiomas, o que o faz o autor brasileiro de livro-reportagem mais publicado no mundo. A obra foi recentemente adaptada para o cinema (Globo Filmes), com exibição em circuito nacional.

 

Este texto foi publicado originalmente na revista Sabor.club #21 que está na melhores bancas por todo Brasil. E também na banca digital www.zinio.com.Ou assine clicando aqui  sabor.club/assine

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