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Hubert Aranha e os programas de culinária na televisão

Comer com os olhos: a maior vantagem de assistir programas de culinária na televisão é que, pelo menos, eles não engordam

Hubert Aranha - Publicado em 15/12/2018, às 17h00

Quer dizer, isso se você não ficar empolgado e sair da frente da TV para se aventurar na cozinha, depois de uma receita da Palmirinha. A verdade é que a TV aberta, a TV por assinatura e a internet estão entupidas de programas sobre comida. É duro de engolir. Competições culinárias, programas de receitas, viagens gastronômicas, guias dos melhores restaurantes do mundo... Fica difícil digerir tanta gastroinformação, mesmo sendo um gourmet, gourmand ou glouton (são coisas diferentes, pode checar com o Robert, não o editor desta revista, mas o dicionário francês).

Vamos começar pelos concursos e competições tipo MasterChef, Topchef etc... Apesar do enorme sucesso desses shows, já vou logo dizendo que são os que menos gosto. Não tenho saco para chefs famosos fazendo cara feia, enquanto toca aquela musiquinha de suspense, sempre em pausas enormes, quando os jurados vão provar as comidas dos pobres concorrentes, coitados, que chegam às vezes a chorar na comida de tanto nervoso.

Outro tipo de programa são aqueles que dão receita e ensinam os telespectadores a cozinhar. Não dá para negar a utilidade desses shows, eles ajudam as pessoas a perder o medo de cozinhar e tentar comer melhor. Mas tome cuidado. Pra chegar naquele prato bonito que você está vendo ser preparado, existe uma brigada de assistentes, fotógrafos, editores, diretores e até maquiadores de comida. Eles dão um duro danado para apresentar aquela receita linda. Que, convenhamos, vai ser difícil reproduzir no fogãozinho da sua casa. Quase fake food, mas tudo bem.

Não posso negar que sou fã do Jamie Oliver, com seu eterno ar de garotão, que faz parecer fácil cortar uma cebola com aquela velocidade e técnica impecáveis adquiridos em anos de cozinhas calorentas e gritos do chef-chefe. E a bela Nigella Lawson, que é jornalista de formação e, mesmo assumidamente desengonçada, nos incentiva com seu charme a preparar comidas simples e saborosas. Sem falar na multidão de cozinheiros, atores, modelos que, cada um no seu galho, engrossam esse caldo.

Mas existe um estilo diferente de programa culinário. São aqueles que, menos preocupados com receitas, falam das pessoas que estão por trás de um prato típico ou produto regional. Geralmente, esses programas misturam viagens e gastronomia, com o apresentador provando iguarias (algumas bem intragáveis) em locais exóticos de difícil acesso. Só pra nos deixar com raiva de não estar ali! Um exemplo clássico é o do careca Andrew Zimmerman com o seu Comidas Bizarras e o excelente Somebody Feed Phil, no Netflix, com o humorista Phil Rosenthal.

Agora, vamos combinar: quem fez o melhor programa do gênero foi o grande Anthony Bourdain. Cozinheiro profisional, Bourdain se tornou escritor (seu Cozinha Confidencial é um clássico) e saiu de trás do fogão para brilhar na frente das câmeras. Entre todos os meus inúmeros defeitos, não está a inveja, mas confesso que invejava o trabalho do cara. Com seu jeito cínico, temperado por um senso de humor incrível, Bourdain, mais do que ficar provando coisas esquisitas, mostrava pra gente que a comida é parte da cultura de um povo, seja aqui no sertão da Paraíba ou no delta do Rio Mekong, no Vietnã. É uma pena que uma pessoa tão bem sucedida quanto ele, escritor bestseller e detentor de vários prêmios por seus programas de TV, tenha resolvido colocar um ponto final, não num novo livro, mas na própria vida. Valeu, Anthony Bourdain, nós, seus fãs de carteirinha, agradecemos.

 

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