Nello Garaventa na cozinha aberta do Grado, no Rio. Em volta dele, a estante criada pela mulher Lara Atanian, com objetos de família: “Lembrei da casa da minha avó” - Fotos: Diego Mello

Nello Garaventa na cozinha aberta do Grado, no Rio. Em volta dele, a estante criada pela mulher Lara Atanian, com objetos de família: “Lembrei da casa da minha avó” - Fotos: Diego Mello

Grado: o restaurante mais aconchegante do Rio de Janeiro

Em ambiente sofisticadamente informal, o casal Lara Atamian e Nello Garaventa nos leva a Itália profunda

Robert Halfoun - Publicado em 05/06/2019, às 14h00

 

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NUM DOS CANTINHOS ACONCHEGANTES do Grado, uma das ruazinhas gostosas do Jardim Botânico, no Rio, a cômoda em jacarandá com belos detalhes de marchetaria guarda um tesouro dentro dela: a coleção completa dos discos do Chico Buarque, que a Lara Atamian, mulher do Nello Garaventa, guarda para um dia, quem sabe, tomar coragem e pedir para o ídolo dela fotografar.

 

A casa tem um monte de outras coisas do casal espalhadas pelo ambientes. Fotos da família dele, livros e objetos da família dele, que foram para na estante que envolve a grande janela que separa a cozinha do salão, no térreo. “Quando vi, percebi que ficou idêntica a da casa da minha vó”, conta a simpática Lara, a designer-arquitetadecoradora-admistradora do restaurante cheio de alma que conquistou o coração de uma clientela fiel, que chega a frequentar o lugar duas, três vezes por semana, como no caso do casal de jornalista Maria Prata e Pedro Bial.

No Grado, o chef Nello Garaventa reproduz com autenticidade a comida rústica-refinada dos pequenos restaurantes espalhados pelas cidadezinhas da Bota

Numa das noites em que estou no restaurante, cruzo com eles na varandinha logo na entrada, onde está um pequeno balcão de bar e as mesinhas iluminadas por um simpático fio de pequenas luminárias em formato de abacaxi (a figura da fruta representa boas-vindas para vários povos do mundo). E também pelo móbile desenhado pela Lara, construído com o auxílio luxuoso do sogro, que tem um oficina de carros antigos e sugeriu o uso de luzinhas de carro. O cenário é um charme.

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Mais do que isso, ele é um portal que nos atrai até lá, em busca da sensação de estar acolhido por um clima sofisticadamente informal, com cheiro de cozinha boa no ar.

O Nello, formado pelo mestre Dânio Braga, pelo Senac de Águas de São Pedro e pela comida da vó, na Itália, é o responsável por ela. Aqui, ele reproduz com autenticidade a comida rústica-refinada servida nos pequenos restaurantes espalhados pelas cidadezinhas da Bota. Aquela que têm uma rua principal, uma igreja, um castelo e um restaurante. Nello passou por um deles, em Cremona, onde virou membro da família, que pegava o Fiatizinho Panda do patriarca para dar rolês nos dias de folga. Enfim, não só entendeu mas incorporou o a alma da cozinha de alma. E, sabemos, ela só funciona em casas familiares, como o Grado. Lugar que, nos fins de semana, não estranhamos quando a pequena Lia, filha do casal, corre por entre as cadeiras garimpadas uma uma e o aparador que veio da casa de uma moça em Copacabana, entra na cozinha e pega uma lula para brincar. “Na hora é tenso, mas é engraçado”, diz a mãe.

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O molusco faz parte de um cardápio que foi nascendo junto com a obra feita na casa. E conforme o sonho do casal, idealizado há quase 20 anos, ia se tornando realidade. “Sempre quisemos ter algo nosso. Desse jeito. A comida, em todos os sentidos, faz parte da nossa vida mesmo quando ninguém do nosso meio social sabia o que era uma batedeira Kitchen Aid. Muito menos desejava ter uma”, brinca, Lara.

Outro objeto de consumo de muita gente, hoje, é o tal do forno à lenha de alta temperatura. Nello tem um. É o seu xodó e por onde passam quase todos os pratos da casa, num preparo aqui ou ali. Foi na Itália profunda que ele descobriu e aprendeu a usar o equipamento que atinge potentes 450º C. Para lá, por exemplo, vão os legumes frescos, apenas cortados e banhados com um fio de azeite. Saem do calor crocantes e caramelizados, sem praticamente interferência alguma – encantam o comensal. Eles acompanham o peixe assado inteiro, cuidadosamente desossado pelo chef, que mantém cabeça, rabo e toda a estrutura do peixe. Parece mágica.

“Me empenho em fazer bem feito e não mudar conceito nenhum. Não estou aqui para revolucionar a gastronomia, não”

 

Além do pescado, Nello, é um craque das massas e molhos que nos fazem viajar para a Bota, numa garfada. O segredo de tanto gosto bom é a filosofia low profile do cozinheiro hiperativo, que chegou a estudar administração mas morreria sentado num escritório. De pé, em ação, da forma como assistia às aulas na escola, ele pratica o que diz: “Me empenho em fazer bem feito e não mudar conceito nenhum. Não estou aqui para revolucionar a gastronomia, não”.

 

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Mais uma vez, o casal está alinhado no discurso. “Estava cansada dessa comida arrumada com pinça, sabe”, desabafa Lara. Ela não cozinha mas diz que atua como um arquivo vivo do marido, lembrando de preparos que ele vem fazendo ao longo dos anos, ótimos para esse ou aquele produto sempre fresco que chega todo dia no restaurante. Ele faz ou não. Cada um no seu quadrado.

 

Ambos, no entanto, atentos aos comentários que ouvem deste interlocutor e de tanta gente que passa por aqui. É nítida a empolgante dedicação que ele têm para fazer direito. E fazem bem demais. Tanto que a coleção de Pinocchios que a Lara cultiva desde pequena, e foi parar no restaurante, aumenta a cada dia. Agora, porque ela, volta e meia, ganha um boneco dos fãs do Grado. Que, de alguma forma, sentem que a casa é deles também. 

Grado – Rua Visconde de Carandaí, 31, Jardim Botânico, Rio de Janeiro – RJ. Tel.: (21) 3253-3101

 

*Esta reportagem foi publicada originalmente na revista Sabor.club #26, que está na melhores bancas por todo Brasil. E também na banca digital www.zinio.com. Ou assine clicando aqui  sabor.club/assine.

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