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Domingo no parque

Ex-workaholic, o chef Flávio Miyamura levou um tombo para agora transformar a vida e a sua cozinha

Leticia Rocha - Publicado em 13/04/2018, às 09h00

SÁBADO A NOITE, NO MYA, RESTAURANTE BADALADO ENTRE FOODIES e gourmets, na capital paulista, desde de que Flávio Miyamura, ex-subchef de Alex Atala e chef da casa brasileira dos estrelados espanhóis Xavier e Sergio Torres, partiu para voo solo. A casa está cheia, o chef está tenso. Chegou a notícia que a esposa Claudia entrara em trabalho de parto do primeiro filho deles e Flávio não consegue sair do restaurante. O subchef está de férias, não há quem toque a cozinha. O pequeno Arthur nasce. O chef não vê. Depois faz a sua primeira mamada. O chef também não vê.

Hoje, três anos depois, ele abaixa a cabeça depois de contar a história. “É a maior frustação da minha vida”, diz, engasdo. Difícil segurar a emoção. De lá para cá, a casa fechou, Flávio experimentou o que é ser sócio de um negócio que não aconteceu e agora ressurge à frente de um novo restaurante, como diz, no papel de chef-funcionário.

 Flávio, Claudia e o pequeno Arthur  

A notícia e a abertura do La Extásia causaram um certo frisson no mundinho da gastronomia. Miyamura é queridíssimo e tido definitivamente como um dos nossos mais jovens talentosos. Tanto que andou fazendo consultorias e lançando cardápios de projetos ambiciosos, como o restaurante Xian, um gigante de frente para a Baía da Guanabara, no Rio.

Com a vida muito mais equilibrada, ele está mais feliz ao deixar o lado exclusivamente autoral de lado (e seguir direcionamentos), em prol de mais tempo para si e para a família. O chef, enfim, consegue levar o filho na escolinha todos os dias e, aos domingos, para brincar no parque. “Antes, eu era 24 horas a minha carreira. Hoje, eu posso organizar uma rotina, apesar de ter uma agenda intensa, na qual preciso estar cada hora em um lugar. Mas há espaço também a mim.”

A fala vem com uma certa sensação de ‘ufa’ nas entrelinhas. O chef, nas palavras de quem o conhece muito bem, hoje é outra pessoa. Está mais falante, se mostra mais maduro e seguro com as decisões que toma. Faz conexões como passado, que o levam para o futuro. “Meu pai fez muita falta, durante anos, na época em que precisou morar em Portugal por conta do trabalho. Não quero isso para o meu filho.”

 Risoto de abóbora com chocolate branco

O que o chef quer mesmo, hoje, é fortalecer as relações. E usa isso para passar na mesa, um recado para os seus clientes. No menu da sua nova casa, pululam pratos para compartilhar, para serem servidos em grupos e para que as pessoas fiquem a absolutamente à vontade para provar um dumpling de camarões com chutney manga aqui ou um wagyu com tubérculos acolá. Também há pratos individuais, mas que se pedidos para compartilhar, já saem da cozinha porcionados. Para dois até três comensais. O chef, meio sem querer, e absolutamente coerente com a linha asiática que pauta o seu trabalho, apresenta o conceito de gastronomia mais moderno e antenado do mundo.

Ele permite, aliás, mais liberdade quanto a estilos de culinária. É por isso que a gente não estranha quando o cardápio do La Extásia apresenta, por exemplo, os arrozes tostatos, em espanhóis, que fazem tanto sucesso nas mãos dos espanhóis premiados para quem trabalhou.
Aos 33 anos, 16 na cozinha, Flávio Miyamura Anda, afinal, com um sorriso largo e radiante – talvez num nível jamais visto. Até porque, além de tudo, conta com a firmeza da esposa Cláudia, no comando de tudo o que não diz respeito a cozinha. “Ela tem o dom para isso, já foi comerciante, já teve loja de roupa, de joias. Depois estudou Gastronomia e ganhou muita experiência também com o salão.”

Extásia – Rua Diogo Jácome, 361, Vila Nova Conceição, São Paulo – SP. Tel.: (11) 3842-0737

* Esta reportagem foi publicada originalmente na revista Sabor.club #14. Para assinar acesse sabor.club/assine