- Fernando Eduardo

Fernando Eduardo

Cozinha da saudade

Da roça para a rua onde nasceu, na cidade grande, a premiada Tânea Romão atende pedidos e ouve as histórias da clientela, pelo Facebook

Leticia Rocha - Publicado em 08/04/2018, às 09h00 - Atualizado em 09/04/2018, às 09h00

O PORTÃO BAIXO DE UMA CASINHA EM RUA COM ASTRAL de cidade do interior nos permite ver um senhor que deve ter lá seus 70 anos consertando gaiolas. Ao lado, há uma loja de maiôs clássicos para hidroginástica e, numa outra portinha, uma oficina de eletrodomésticos que parece ter saído dos anos 1960.

Na vizinhança ainda estão uma série de casas que vendem itens gerais de segunda mão, botecos com jeitão de padoca e, contrastando com tudo isso, colégios com segurança na porta, lojinha gourmet, prédios espelhados. A gentrificação está chegando no bairro da Lapa, em São Paulo, mas sem tirar o charme antiguinho do lugar que tem tudo para ser já já a próxima Vila Madalena, no melhor (ou não) estilo de bairro da vez – fica ligado.
É aqui onde a cozinheira Tânea Romão passou a infância, antes de crescer e aparecer fazendo uma comida dos deuses, entre Gonçalves e Tiradentes, em Minas.

Depois de 20 anos por lá e um monte de prêmios na prateleira, deixou para trás o que é sonho de vida para muita gente: verde, natureza, qualidade de vida. “Luxo para mim é poder ir ao cinema, livraria, show”, brinca ela. “Pode parecer curioso, mas lá em Minas eu precisava de carro para fazer tudo, até para comprar pãozinho. Aqui, faço tudo a pé. Vou ao mercado, quitanda, banco. No meio do caminho, paro, converso com vizinhos... O bairro onde eu cresci é assim.”

Depois de 20 anos de sucesso no interior de Minas, deixou
para trás o que é sonho de vida para muita gente: natureza,
qualidade de vida: “Luxo para mim é poder ir ao cinema”


No enredo, a dose de nostalgia segue: Tânea alugou uma casa vizinha daquela na qual passou a infância e a adolescência. “Toda vez que eu pensava em morar em São Paulo, esse imóvel estava para alugar. Dava um frio na barriga... Dessa vez, tomei coragem e voltei.”

Claro, não pensou em parar de cozinhar, mas não queria ouvir falar em restaurante, dólmã, cardápio. Para resolver o dilema, Tânea atua na sua cozinha, sem frescura. Se der vontade, até de chinelo. Acorda as seis da matina, toma café na sala, lê um livro. Depois vai ao mercadão do bairro, vê o que está fresco, decide o que vai cozinhar e servir para os seus novos clientes, volta e escreve na lousa que improvisou no muro amarelo, que contrasta com os janelões verdes e o piso de cacos vermelhos, tão típicos das casinhas paulistas do século 20.


Ao meio dia, fecha a porta do quarto, fiscaliza se deixou algum item pessoal no banheiro e vira “estabelecimento comercial”, com o nome que consagrou em terras mineiras: Kitanda Brasil, agora acrescido da palavra Oficina. Quando bate quatro da tarde, para de servir refeições, organiza as coisas, limpa o fogão, lava a louça – com a mãozinha de dois ajudantes. Então a sala que dá para a área externa da casa vira uma espécie de vendinha e café, na qual serve bolo, lanchinhos rápidos e vende os produtos que ficaram famosos em Minas: geleias, compotas, chutneys, antepastos e molhos (veja mais em quadro à frente).

Seis da tarde parte para as tarefas que obrigam telefone e computador. Responde e-mail, paga contas, fala com fornecedores. Lá pelas oito da noite, encerra o expediente e volta a ser a Tânea da Lapa.

Ela jura que tem conseguido dividir bem os dois universos em um só lugar.

 

“Estou mais feliz do que nunca. Sabe por quê? Porque voltei para o fogão, coisa
que fazia no início, em Minas, e fui abandonando ao ter de pegar um avião para
fazer coisas como gravar programa de TV...”.


Se tudo é permeado por lembranças, é natural que o tema seja seguido também nas panelas. Delas saem rabada com polenta, frango com quiabo, língua na cerveja, espaguete feito em casa com ragu, peixada, moqueca. Sempre tem arroz e feijão. Daquele de mãe, fresquinho. E ainda saladinha, pimenta, farinha. O saudosismo segue com doce de leite, de abóbora, goiabinha, café coado.


É algo que ela tem chamado de “comida de saudade”, que inclusive, virou tema de uma postagem no Facebook, no qual as pessoas interagem e fazem seus pedidos. Ela responde os comentários e atende as vontades. Resultado: desde a abertura em janeiro, Tânea já tem uma clientela fixa da região e um mundo de gente antenada que anda cruzando a cidade para pagar pouco e comer muito bem. Sem afetação. “A turma que vem sempre marca o almoço na caderneta e me paga por mês. Como numa pensão”, diverte-se.

Dica final: a feijoada aos sábados é imperdível.


Oficina Kitanda Brasil
Rua Catão, 893, Lapa, São Paulo, SP. Tel.: (11) 94288-8007

 

* Esta reportagem foi publicada originalmente na revista Sabor.club #14. Para assinar acesse sabor.club/assine