A dupla de cozinheiras Natalia D’Aguiar e Simone Campos criam almoço secreto imperdível no bairro mais charmoso do Rio  -

A dupla de cozinheiras Natalia D’Aguiar e Simone Campos criam almoço secreto imperdível no bairro mais charmoso do Rio

Cozinha Convida: chefs preparam almoço secreto em Santa Teresa, no Rio de Janeiro

Almoço divinal é um segredo que as cozinheiras Natalia D’Aguiar e Simone Campos guardam para apenas 12 pessoas

Pedro Landim - Publicado em 26/12/2019, às 11h00 - Atualizado às 12h00

A VIAGEM VAI DAS HORTÊNSIAS AÇORIANAS que enfeitam o arquipélago de além-mar às florações das bouganvilles cariocas, atravessando as águas quentes da Bahia e aportando num casarão centenário no bairro de Santa Teresa, onde o bonde faz a curva. A gente vê quando ele passa, através janelas azuis que parecem quadros na parede, sentados em mesa de mármore dos anos 1830 que naquele tempo já viviam cobertas de quitutes.

São muitas as histórias por trás de um almoço dominical para apenas 12 pessoas, que abusa de ser gostoso na residência da doceira Alda Maria, cozinhado, servido e comentado por dois sorrisos vestidos em dólmã jeans e lenços floridos na cabeça: Natalia D’Aguiar e Simone Campos.

A primeira está de volta à cozinha desde que pediu demissão num dos maiores grupos da gastronomia carioca e virou ceramista, servindo sua comida nas louças que produz. A segunda, representando a nona geração de confeiteiras de uma família de imigrantes dos Açores, atualiza com esmero a doçaria conventual e encerra o auspicioso menu a quatro mãos com a sobremesa que lhe valeu o troféu do programa Que Seja Doce.

 “A crise veio depois de cinco anos trabalhando 14 horas por dia na cozinha profissional, sem espaço para outras descobertas. Agora começo a realizar um sonho de vida. Fazer as coisas do meu jeito, no meu tempo. Minha cerâmica e minha comida”, diz Natalia. Aos 32 anos, a moça carrega a experiência de quem chegou ao topo no Grupo Irajá, de Pedro de Artagão, por volta dos 25. Saiu em projeto pessoal de “libertação”, viajou da Disney a Fernando de Noronha. Até que descobriu a cerâmica e, definitivamente, mudou de vida.

Um bowl cor de esmeralda inicia o almoço, abrigando pães especiais saindo do forno, acompanhados por ricota artesanal e manteiga mineira, ao lado de um pequeno vaso com pedrinhas e uma solitária margarida amarela.

Natália D’Aguiar está de volta à cozinha desde que pediu demissão num dos maiores grupos da gastronomia carioca. Simone Campos é a nona geração de confeiteiras de uma família de imigrantes dos Açores

E Simone aparece para explicar uma joia lusitana redonda, macia e adocicada chamada Bolo Lêvedo: “É típico da ilha de São Miguel, nos Açores, você encontra nas padarias de lá. Leva leite e manteiga, e faço com fermentação lenta”. Ao lado, os pães de queijo são adaptações de Natalia para o bolo podre do Maranhão, terra de sua mãe, agora feitos com tapioca, minas padrão e parmesão.

Convém solicitar uma taça de vinho português nesse momento, e aproveitar a viagem no tempo sugerida pela sala onde também funciona o Museu do Doce. Relíquias dos antepassados de Simone estão por toda parte, entre porcelanas e pratas, cadernos de receitas seculares e fôrmas com brasões para doces como as marmeladinhas que chegaram a ser degustadas pelo Imperador Dom Pedro II.

O monarca se curvaria diante da simplicidade e a precisão do primeiro prato da tarde, receita que traz afeto a portugueses e brasileiros: o bacalhau com arroz de brócolis. Equilíbrio e sabores vivos, do ponto ideal do arroz tingido nas folhas verdes batidas à textura do peixe, confitado com o alho e as cebolas. “Os menus são portugueses e contemporâneos, porque trazem nossa assinatura. É comida de verdade, com 100% de sabor, afeto e amor”, define Natalia. “Fazemos as compras nas feiras orgânicas do bairro.”

Na cesta da semana, batatas doces roxas e laranjas viraram chips delicados a adornar o picadinho de filé com toucinho, ao molho de ostra, e os legumes em minicubos salpicaram de cores o cuscuz de Braga que acompanha a carne.

É o prato principal, servido após o camarão espiritual gratinado com creme leite e batata em purê. A receita leva caldo de legumes e um toque de shoyu “para um pouco de umami”.

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A versão delicada e saborosa do bacalhau com arroz com brócolis e o camarão espiritual gratinado com creme leite e batata em purê. A receita leva caldo de legumes e tem toque de umami

Em licença poética, podemos dizer que o sal e o doce dos almoços de Santa Teresa, em Natalia e Simone personificados, vieram de mar e cachoeira baianos, entre tapiocas de carne seca e banana da terra nas águas da paradisíaca Itacaré. “Somos amigas e fizemos juntas uma viagem relevadora. Precisávamos de uma distância para trocar ideias, conversar sobre como cozinhar e ter qualidade de vida”, conta Simone.

E o aguardado momento da sobremesa se aproxima na casa doceira onde ela mora com a mãe, Alda Maria. São duas iguarias: o Dom Rodrigo e as provocantes Natas do Céu, um doce popular de famílias portuguesas feito com a maestria que deixou de boca aberta os jurados do Que Seja Doce, arrancando um raro adjetivo do rigoroso confeiteiro Roberto Strongoli: “Esplêndido”. “Em Portugal é tipo um pavê. Faço no copo, em camadas com o doce de ovos na receita da minha bisavó, um creme de natas e um biscoito caseiro quebrado e crocante.”

“Somos amigas e fizemos uma viagem relevadora, quando nasceu o almoço. Precisávamos de distância para trocar ideias, conversar sobre como cozinhar e ter qualidade de vida”

 

O encontro semanal de Simone e Natalia em volta a mesa faz lembrar do português Fernando Pessoa, mudando um pouquinho a frase que ele fez famosa: navegar é preciso, viver também.

Cozinha Convida – Rua Almirante Alexandrino, 1116, Santa Teresa, Rio de Janeiro – RJ. Os almoços são anunciados no perfil do instagram da Alda Maria Doces. Tel.: (21) 99932-4667 e 98542-1320

 

Este texto foi publicado originalmente na revista Sabor.club #34 que está na melhores bancas por todo Brasil. E também na banca digital www.zinio.com. 

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