- Henrique Peron

Henrique Peron

“Comer é um ato político”

Engajada e militante, a chef Bel Coelho faz da sua cozinha um delicioso canal para abordar causas bem relevantes

Robert Halfoun - Publicado em 24/08/2018, às 15h00

ALÉM DA TRISTE SITUAÇÃO política do país, assunto que acompanhará o brasileiro por muito tempo (pelo menos há sinais de que estamos evoluindo nessa questão), dois outros temas virão para pauta, com relevância, nos próximos anos: como combater a pobreza extrema, que aumentou segundo dados do IBGE, e alimentação. De onde vem o que o brasileiro come? Como produzimos? Como podemos produzir? É possível acabar com a fome e fazer o brasileiro comer melhor, por meio da agricultura? Afinal, o Brasil é um país agrícola!

Da sua cozinha no badalado Clandestino, que funciona uma semana por mês, na descolada Vila Madalena, em São Paulo, a Bel Coelho pensa em tudo isso. E em inúmeras outras causas, principalmente, relacionadas à alimentação – segmento onde está naturalmente inserida.

A ideia dela como cozinheira de ponta não é só fazer comida para entreter e satisfazer. Mas também para conectar. “Comer é um ato político”, defende, ao conversar comigo, num café, entre um compromisso e outro, no bairro onde mora e trabalha. Ela se define como uma articuladora na cozinha. Liga pontos. Se envolve com toda a cadeia para fazê-la chegar de forma muito natural a quem, simplesmente, senta à mesa e come. “Há áreas dentro da alimentação, que não se conectariam sem esse trabalho. E sem essa conexão, oportunidades são perdidas tanto para um lado quanto para o outro”, define, enquanto dá uma olhadela no relógio.

“Embora o meu momento seja meio caótico, vivo uma fase de estabilidade. E de satisfação também, especialmente com o formato e com o tempo que tenho para fazer coisas.”

O tempo diz respeito à escolha que fez de tocar o próprio restaurante, sem investidores, de forma sustentável, com espaço para cuidar dos filhos e outros aspectos da carreira – as tais “coisas”. Elas são mais pesquisa, envolvimento em projetos sociais e a militância em algumas causas que eu sempre quis defender.

Ao pé do ouvido, então, me diz: “Dificilmente falo de todas as minhas causas para todo mundo. Não faço para dar visibilidade para o meu trabalho ou me exibir. Embora eu curta tudo isso, sim. Me dá um gás, eu nunca estive tão feliz”.

Isabel Aranha Coelho, vale dizer, é bisneta do diplomata e político gaúcho Osvaldo Aranha, muito amigo de Getúlio Vargas e figura chave no governo dele. “Cresci num ambiente politizado. Tenho uma necessidade grande de atuar no universo público. Eu tenho interesse por política”. Diz também que foi uma adolescente de elite que teve todas as oportunidades que quis ter. Agora, se sente em dívida por estar na ponta privilegiada de um país com uma desigualdade social tão grande. “Quanto mais eu tomo consciência e empatia pelas causas, mais me sinto nesse dever. Acho que a elite e a classe média brasileiras têm que devolver mais”.

Mas, afinal, que causas são essas? Bel julga que algumas são mais urgentes. A valorização da cadeia produtiva agrícola, orgânica e agroflorestal é uma delas. “Eu entro em tudo o que envolver produtor, incentivo ao pequeno produtor, comunidades produtoras de alimentos agroflorestais ou orgânicos”.

Por isso se encantou e agora é sócia do projeto Da Terra ao Prato, que faz eventos nos quais conecta essa gente toda, incluindo quilombolas, e apresenta para o consumidor final. A edição mais recente dele aconteceria este mês, porém foi adiada e deve ser realizada no fim de agosto.

“A minha bandeira maior é incentivar e trazer consciência sobre toda essa cadeia para as pessoas”.

Há outras, como a discussão sobre a utilização de agrotóxicos no Brasil. “A ideia é aumentar
a bancada agrícola e agroflorestal no congresso, para atuar em cima disso. Não falo em ambiental, porque tem uma conotação muito abrangente. E hoje, infelizmente, é um conceito desgastado”.

A chef participa também de ONGs que fazem um trabalho bem específico. A que apoia os refugiados no Brasil; a que abre bibliotecas nas cidades ribeirinhas, na Amazônia; a que complementa os tratamentos para crianças e adolescentes de baixa renda com câncer. “As pessoas me chamam e eu não consigo dizer não. É uma loucura... Não sei nem se é ou dá para falar de tudo isso...” Aí, reforça: “Não faço para aparecer”.



De volta à alimentação, a chef participa também do conselho de segurança alimentar e nutricional da cidade de São Paulo, que fiscaliza e propõe programas para a secretaria de educação. Para ver como tudo se dá, bem de perto, colocou os filhos para estudarem numa escola pública.

“Quero ver como funciona essa educação. Eles estão numa fase em que o convívio vale mais do que o conteúdo curricular. E tem sido ótimo. As professoras são incríveis, bem preparadas.”

O aprendizado mais amplo, defende, é o que realmente importa. “Não quero que o meu filho ache que o Brasil no qual ele vive é branco e que negros são sempre pobres e serviçais.”

O discurso vira prática também dentro de casa, onde a empregada doméstica senta à mesa, com a família. “A intenção é quebrar determinados tabus que via na casa dos meus pais, onde havia talheres diferentes para os serviçais”.

Mais uma vez, Bel fala de uma “elite alienada”, que precisa sair da bolha – o que, defende, seria ótimo para todos os lados. “Há, claro, quem faça trabalhos em comunidades. Mas é uma trabalho branco. A gente ajuda mas não se mistura. É isso o que eu quero quebrar no meu microcosmo”.

E num mais abrangente também, quando usa a sua boa formação como cozinheira para realmente colocar as suas convicções no prato. De forma muito atraente e inquestionavelmente bem feita. Bel Coelho faz alta gastronomia, a partir da missão de revelar a diversidade e a cultura brasileiras. Como no menus dos biomas, dos orixás e da cadeia vegetal, que começa agora . “Na hora que monto cada prato, estou apresentando coisas que são desconhecidas de muita gente. Há quem não soubesse da existência da cultura do candomblé e de ingredientes como o baru. É preciso criar empatia por tudo isso”.

Mais dois elementos entram na construção da cozinha dela: a utilização de ingredientes orgânicos e agroecológicos, na sua maioria, e a priorização da produção de assentados e quilombolas.

“Se a gente investe na cultura agroflorestal com manejo orgânico bem feito, ajuda na manutenção das matas. A ideia é que a floresta seja economicamente viável.” O movimento,
diz, promove, em outra ponta, novas alternativas de subsistência e também do cultivo sem agrotóxico.

No meio de tanto engajamento, Bel está atenta para atuar e se mostrar sem que receba o selo da chata-militante. “Deixo de postar algumas coisas por causa disso”, diz, referindo-se às redes sociais. “Não quero pecar pelo excesso – em nada, aliás”.

Às vezes, recebe umas indiretas em relação à sua atuação política-social. Aí, responde diretamente. Principalmente quando percebe que comentários aqui ou ali são um desserviço real para a sociedade e para o seu público. “Nesses casos, eu vou lá, revido e falo mesmo. A reação é pela indignação. Eu não propago discurso de ódio”. E finaliza, apressada. Precisa ir para a cozinha, porque hoje tem jantar no Clandestino.

À mesa, pratos como o quiabo grelhado com ponzu de uvaia, o camarão com salada de feijão manteiguinha e o creme de cogumelos com terra de cacau dizem mais do que mil palavras.

 

Clandestino – R. Medeiros de Albuquerque, 97, Vila Madalena, São Paulo – SP. Tel.: (11) 93100-7700

 

*Esta reportagem foi publicada originalmente na revista Sabor.club #17, que está na melhores bancas por todo Brasil. E nas bancas digitais também www.zinio.com  e www.goread.com.br. Ou assine clicando aqui  sabor.club/assine.