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Cacau selvagem do Amazonas dá origem ao Na'Kau, chocolate que preserva a floresta

Projeto sustentável dos cacaueiros ajuda famílias e profissionais de atividades essenciais do Norte

Pedro Landim - Publicado em 31/07/2020, às 12h00

Matéria prima de todo chocolate, a espécie Theobroma cacao nasceu ali mesmo, no interior da Floresta Amazônica, com seus frutos consumidos por etnias locais antes de subir para a América Central e cair nas mãos dos colonizadores espanhóis. Eles, então, levaram seus poderes ao Velho Mundo. Quem conta é o biólogo Artur Coimbra, criador do único chocolate no planeta a trabalhar de forma integral com o cacau selvagem do Amazonas, e preservá-lo de forma a impactar de forma positiva uma cadeia de produção que abraça 26 famílias no estado.

O trabalho iniciado há oito anos para capacitar cacaueiros da região, que têm suas fotografias e nomes impressos nas embalagens do chocolate Na’Kau, segue um modelo sustentável que obedece ao tempo e aos caprichos da natureza, mantendo a floresta em pé e pagando aos trabalhadores 120% a mais do que o mercado local. A crise, porém, ligou o sinal de alerta na mata e um novo projeto solidário está em curso.

 

 

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“Não falamos apenas de uma marca de chocolate, mas de milhares de famílias e a floresta que dependem diretamente de um bom futuro para a cacauicultura no estado”, diz Artur.

 

 

Ele criou um esquema de venda de kits do precioso chocolate pela internet, com 25% do valor arrecadado convertido em chocolates que serão entregues a profissionais de atividades essenciais de Manaus como saúde, segurança e transporte público.

O objetivo é manter rodando a estrutura de produção artesanal que resulta em chocolates de aromas complexos e únicos, frutos de um processo que, se realizado de forma contínua, leva dois meses desde a retirada dos frutos nas árvores, colhidos no grau de maturação exato, o ponto mais doce.

“Trabalhamos com o cacau selvagem na mata, no que chamamos de agrofloresta ‘caboca’ (cabocla), um sistema mais vivo, sem critérios científicos. O cacau cresce entre seringueiras, taperebeiras, castanheiras, as espécies se ajudam e equilibram”, diz Artur, parceiro de cacaueiros de sete de municípios do Amazonas como Nova Olinda, Manicoré, Urucurituba, Novo Aripuanã e Borba.

 

 

Os produtos têm versões com ingredientes como cupuaçu, castanha, café e leite de coco, em diferentes porcentagens de cacau selvagem. O chocolate 72% com pimenta Baniwa, por exemplo, traz a foto da senhora na floresta e estampa e a frase: “Pode conter cacau produzido pela Sra. Lúcia França”.

Na feitura das barras do Na’Kau, antes mesmo da retirada das sementes, o cacau descansa por quatro dias. A fermentação que controla a acidez do fruto e desenvolve aromas frutados dura dez dias, em caixas de madeira revestidas com folhas de bananeira.

As amêndoas secam por mais dez dias antes da moagem. E o chocolate pronto ainda descansa por um mês em processo de maturação, quando mais ácidos se volatilizam e o dulçor se veste de notas florais. “Na cheia do rio, as plantas ficam submersas e o cacau é coletado dentro a canoa. A água recicla o solo e leva nutrientes”, explica Artur.

Está aqui uma Amazônia que dá gosto de ver, ao contrário da floresta vítima de um genocídio ambiental, pelas mãos de gente inescrupulosa.

 

 

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