- Estúdio Gastronômico

Estúdio Gastronômico

Chá das quatro

Seu Álvaro e Seu Jorge Lopes tinham um compromisso diário, durante anos: se encontrar para ditar os rumos do empório gastronômico mais respeitado do país

Fernanda Meneguetti - Publicado em 01/10/2018, às 15h00

O cruzamento da rua Augusta com a rua Oscar Freire, em São Paulo, não tinha luz, mas tinha uma calçada recém construída. As árvores ainda eram arbustos e havia terra para além dos canteiros. Álvaro Lopes tinha 2 anos de idade e ficava sentadinho no degrau de mármore do que antes era uma tinturaria à espera do pai, Seu Daniel, e mais do que tudo, à espera do português que, como num truque de mágica, acendia lampiões. São essas as primeiras memórias do empório da família, fundado no dia de Santa Luzia, há noventa anos.

Filho homem em meio a quatro mulheres foi o único a nascer em maternidade, o único que podia jogar bolinha de gude na frente da loja e o único a frequentar o Grupo Escolar Rio Branco, ainda que sem um livro para contar história. “Meu pai não comprava, mas eu era o melhor aluno da classe. Sentava na frente da professora, copiava as lições dos amigos e ia muito bem”, conta como se fosse o menino que à época começava a cuidar das compras da loja e que, mais tarde, batizou o bazar gastronômico mais respeitado do país de Casa Santa Luzia. 

[Colocar Alt]

Em camisa azul de gola branca, gravata e calça social, Seu Álvaro reclama de dor nos joelhos, a vista ajuda cada vez menos, mas as lembranças continuam tinindo. Especialmente as do pós-segunda guerra, quando os negócios começaram a deslanchar. “Arroz, alpiste, milho, fubá, farinha de mandioca, tudo naquele tempo era coisa mais simples. Vinha num caminhão sem cobertura, só com a cabine do chofer. E eu ganhava um dinheirinho a mais vendendo contrabando, quer dizer, coisa fora de nossa tabela de preço: açúcar, óleo, essas coisas que não eram fáceis de conseguir.”

De frente para uma xícara de chá e uma fatia de bolo fofinho, símbolo da família, ele se alegra com a entrada do primo Jorge Lopes, 86 anos. Da mesma forma como acontecia, todos os dias, desde os anos 1950, quando davam uma paradinha no trabalho, às quatro e não às cinco horas, para ditar os rumos do empório que crescia em ritmo acelerado. Nada pareceu mais natural, então, que reproduzíssimos o ritual sagrado para se ouvir às histórias da Casa. À mesa, além do bolo, outros ícones familiares: a torta de figos e vinho do porto de marca própria, as frutas secas recheadas e queijos melba. Entre um gole e outro, Seu Jorge, português de Figueiró dos Vinhos, conta que chega às sete e meia da manhã à Casa, que ocupa o número 1471 da Alameda Lorena desde 1981. Vai a pé até seu apartamento almoçar. Volta a pé à Casa, onde fica até cinco e meia, seis horas. Todo santo dia, há quase setenta anos, quando já chegou carregando compras, pagando contas, fazendo encomendas. De bicicleta abastecia banqueiros, empreiteiros, famílias tradicionais: “Punha o cesto no guidão, com uma mão segurava no bonde e ia até a Paulista, com o maior cuidado para a roda não entrar no trilho.

Álvaro construiu as prateleiras que compõem um dos principais destinos gastronômicos do país, hoje com 30 mil produtos

Da Paulista pedalava até a rua Angatuba 97, no Pacaembu. Ia a uma das primeiras residências entre a Cidade Jardim, a Rebouças e a Marginal, na Rua Campo Verde 340. Naquela altura, São Paulo era a cidade da garoa e eu ia até lá tirar o pedido e voltava molhado com os itens”. Sem retomar fôlego, continua: “Na Rua Holanda 14, esquina com a Espanha, eu ia cedo. Abria o portão, a porta da cozinha, a porta da dispensa. Era uma família italiana muito organizada, eu sabia tudo o que ela precisava pelas faltas que tinham nas prateleiras. Tomava nota, fechava a porta da despensa, a da cozinha e o portão. Eles continuavam dormindo”.

Seu Jorge detalha esses e outros tantos trajetos sem notar que o trabalho que fazia sintetiza a alma da Casa Santa Luiza: o atendimento finamente personalizado. Que, claro, soma-se ao arsenal único de iguarias.

“No pós-guerra, fiz uma burrada em cima da outra. Uma vez importei um macarrão que chegou bichado. Aí, tinha um amigo do meu pai que tinha um moinho e ele me ajudou a fazer do macarrão bichado farinha de macarrão – mas já sem bicho. Eu não comi, mas vendi tudo. Faziam tudo com aquela farinha, até bolo”, conta, entre risadas, Seu Álvaro.

Sua modéstia, porém, o impede de contar que é o grande responsável pelos produtos festejados da casa. Desde os anos 1930, questionava os importadores, provava, pensava. Vivia pelos corredores da loja para escutar os clientes. Décadas mais tarde, viajava à feiras internacionais com dinheiro do próprio bolso em busca de itens que valorizassem seu estoque.

Sem pressa, Álvaro construiu as prateleiras que viraram um dos principais destinos gastronômicos do país e hoje dispõem de 30 mil produtos, sendo 40% importados e, destes, três mil de importação própria. Entre os best-sellers do lugar, números astronômicos como sessenta toneladas de filé mignon e quarenta de bacalhau vendidos anualmente. Sem falar dos milhares de litros das 300 marcas de azeite que escoam pelos caixas mensalmente.

Seu Jorge entrava na casa dos clientes e fazia a lista de compras pelo o que faltava na despensa. O atendimento personalizado até hoje fideliza os consumidores

[Colocar Alt]

Não fosse muito, há empresas que agradecem mais ainda. Seu Jorge lembra: “Quando começamos a comprar da Sadia, recebíamos via aérea, porque não tinha estrada daqui para Concórdia, em Santa Catarina. Engraçado, eles mandavam o presunto e a gente (com os clientes) é quem dizia: mais sal, menos sal, mais gordura, menos gordura. A Casa Santa Luzia foi um tubo de ensaio”.Difícil um ser que goste de comida não agradecer o fato da Casa ter trazido brie e camembert ao país (de avião, como ninguém fazia), ter lançado o queijo melba (e a receita, está aqui!), ter encontrado frutas secas de qualidade e as recheado, ter ocupado as estantes com azeites, vinagres, geleias e molhos de qualidade, ter lançado uma padaria própria respeitando receitas clássicas (o croissant sempre foi devidamente amanteigado e folhado, a baguete sempre levou fermento natural e assim por diante).

 

*Este texto foi publicado originalmente na revista Sabor.club #03, que está na melhores bancas por todo Brasil. E também na banca digital www.zinio.com. Ou assine clicando aqui  sabor.club/assine.

 

 

 

Leia também