- Ricardo Torquetto

Ricardo Torquetto

A cara da Amazônia

Salvos da “extinção”, produtores de cacau dão nome a chocolate de grande qualidade

Julia Pereira - Publicado em 28/08/2018, às 14h42

DONA DINORATH FIGUEIREDO, SEU ORANGE AIRES, Seu Alexandre Pasqual, Seu Arilson Grana, o Doca. Há cinco anos, eles andavam cabisbaixos porque estavam bem próximos de parar de fazer o que mais gostam e o que mais conhecem na vida: plantar e colher cacau.

Todos eles vivem no interior do Amazonas, região rica em frutos de qualidade, admirados no mundo todo. Apesar disso, o cacau que produziam valia muito pouco. Os atravessadores que compravam e depois revendiam para as grandes empresas, pagavam uma ninharia pelas sacas com amêndoas de primeiríssima linha.

Da forma como as coisas andavam, era melhor optar por colheitas mais rentáveis, ou até mesmo ceder a terra para a pecuária. Ao ver essa situação, o biólogo Artur Coimbra teve uma brilhante ideia: criar uma marca de chocolates de alto padrão, que usasse o produto local e criasse um modelo sustentável para aquela gente. E, claro, que preservasse o meio ambiente onde eles atuam.

Assim nasceu a Na Floresta, empresa que dá gosto de ver atuar. Ao entrar no coração da maior floresta do planeta e na realidade de quem vive ali, Artur descobriu, com os próprios produtores, as características típicas de cada fruto colhido por ali e de que maneira ele viraria o melhor chocolate possível.

Nada mais justo, então, do que colocar o nome na linda embalagem das barras, que já chegam ao Brasil inteiro. Artur criou as primeiras amostras na moita. Não falou para o Doca, para o Orange, para o Alexandre nem para a Dinorath que eles, de certa forma, apresentariam o próprio produto. Diante da surpresa, uns sorriram, outros choraram de emoção, como a D. Dinorath. “Foi bonito de ver”, lembra.

Hoje, eles estão ainda mais felizes. Com o desenvolvimento do negócio, Artur já paga 120% a mais do que recebiam pela saca. Aqui, estamos diante de como aumentar o valor para todos os lados: o produtor ganha mais e produz melhor; o consumidor compra um produto especial, com muito mais qualidade. “É preciso deixar claro que o grande responsável pela excelência do chocolate é o produtor rural.

Tudo começa na terra. É preciso mostrar para todos a origem do que consumimos”, exalta Artur. De maneira muito adequada, ele chama os produtores de “autores da experiência”. O chocolate Na’kau vem afinal, do conhecimento dessa gente, acumulado de geração em geração.

Tudo começa bem longe de Manaus, nos municípios de Borba e Urucurituba, onde estão os cacaueiros. Os frutos são colhidos em um certo grau de maturação, para ter a certeza de que estão em seu ponto mais doce. O cacau descansa por quatro dias antes da quebra, onde são retiradas apenas as sementes recobertas de polpa que vão para a próxima etapa.

A acidez da fruta é controlada com a fermentação das sementes do cacau, durante 7 a 10 dias. Ela é feita em caixas de madeira, veja só, revestidas com folhas de bananeira. Durante o processo, elas são mexidas diversas vezes, até perderem o seu poder germinativo e se transformarem em amêndoas.

 

Antes de ir para a fábrica, ainda passam por um período de secagem, que leva 10 dias, em média, dependendo de fatores climáticos. Então vem a moagem e a produção dos chocolates, em sua maioria feitos apenas com a amêndoa, a manteiga do cacau e o açúcar orgânico. A porcentagem de cada ingrediente é fator determinante na intensidade e na complexidade de sabor de cada barra, que revelam notas frutadas ou florais, características muito especiais do cacau amazônico.

O Na’kau está conquistando muitos apreciadores de chocolate. Já tem fãs até nos Estados Unidos e no Japão. Para experimentar, o Na’kau está nas melhores lojas do ramo Brasil afora e brilha também na caixa #11 do Clube Sabor.club.