Pedro de Artagão leva para a praia carioca o melhor da alta gastronomia  - Fotos: Diego Mello

Pedro de Artagão leva para a praia carioca o melhor da alta gastronomia - Fotos: Diego Mello

Azur: o quiosque gastronômico de Pedro de Artagão

Ao abrir um quiosque gastronômico na orla carioca, o talentoso Pedro de Artagão, enfim, junta a fome com a vontade de comer

Pedro Landim - Publicado em 09/09/2019, às 09h00

OS DIAS DE LUZ, AS FESTAS DE SOL E O MACIO AZUL DO MAR SÃO cantados não é de hoje, em verso e prosa, mas faltava harmonia nos fogões do balneário mais bonito do mundo. Como se a beleza rara do barquinho deslizando e a tardinha caindo dessem salvo-conduto a batatas fritas encharcadas, ou biscoitos cansados no pacote. Uma inútil paisagem onde, a bem da verdade, apenas a água de coco se fazia digna de menção honrosa. Não fosse por ela, aliás, o chef Pedro de Artagão passaria batido pelo calçadão em seu trajeto de corridas regulares pela orla do Leblon, bairro onde foi criado a maresia e comida boa dentro de casa. Mas houve um estalo. E ele conta:

“Um dia resolvi dar um tempo com um amigo, depois de correr. Beber algo, comer um bolinho no quiosque de um bar da moda. Senti uma energia boa fluindo entre as pessoas, o cenário maravilhoso, e pensei: imagina se fizéssemos isso com uma pegada de frutos do mar, de comida de praia, um bar e restaurante estilo pé na areia, com gastronomia de alta qualidade?”

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O amor se fez, digamos assim, na descoberta de um acorde perfeito para a canção do Rio que mora no mar. E a criação do Azur trouxe uma bossa nova às areias da cidade, como aquela de João Gilberto e Tom Jobim, inspirada na mesma paisagem, nos anos 1960, e trilha sonora do quiosque renovador.

Por exemplo: uma empada é uma empada, certo? Mais ou menos. Há uma batida diferente no samba de Artagão para esse pequeno monumento dos bares cariocas. “A empada do Azur não usa aquela massa tradicional, mas de sablé, o biscoito amanteigado francês. São receitas próximas, a diferença sutil é o ponto de cozimento da farinha, e a mantecatura. Por isso a nossa se come de colher, para não desmanchar. Na visão do cliente, é a melhor massa de empada que já comeu”, explica. A de palmito, por sinal, tão mau tratado nos bares da vida, se redime em cobertura de leve bechamel e farofa crocante.

“Um dia resolvi comer um bolinho num quiosque. Senti uma energia boa fluindo, o cenário maravilhoso, e pensei: imagina se fizéssemos isso com gastronomia de alta qualidade?”

O resultado da união entre paisagem deslumbrante e comida de alto nível é elementar. A casa chega a atender 600 pessoas em um dia, com equipe de 50 funcionários e, surpresa, a maior cozinha entre os cinco restaurantes do Grupo Irajá, do qual Artagão é sócio, localizada sob o calçadão.

 

Nada prosaico: o estrogonofe de camarão do Pedro Artagão tem um toque no preparo queo deixa muito especial: é o prato que o cozinheiro mais gosta

“O Azur foi propósito do coração e oportunidade. Houve uma virada de chave na concessionária dos quiosques. Perceberam que melhorando a estrutura poderiam atrair empreendedores com apetite.”

O quiosque projetado pelo arquiteto Maurício Nóbrega integra-se à paisagem vestido de azul e branco, das estruturas de madeira aos balcões, almofadas e cadeiras de palha. No cardápio preciso e variado, famosos balcões da informalidade carioca servem de inspiração. É o caso da Adega Pérola, sessentona em Copacabana e citada pelo chef no polvo à vinagrete, eleito o cartão de visitas.

“As pessoas sentam para almoçar e ficam três, quatro horas na mesa.” Compreensível. É fácil perder a hora observando o Morro Dois Irmãos e o céu a mudar de cor, enquanto escolhemos o que degustar de acordo com a ocasião. O papo de maresia ganha requinte quando à mesa emerge o crudo de peixe, fatias marinadas em azeite de ervas e shoyu, enfeitadas com lâminas de rabanete, picles de pepino e um salpicado fino de gengibre e pimenta dedo-demoça. Há na taça um contraste chamado Rosazur, coquetel de jarra com vinho rosé, uva rubi, hortelã, tangerina, água de coco e soda limonada.

O quiosque integra-se à paisagem todo vestido de azul e branco. No cardápio preciso e variado, famosos balcões da informalidade carioca servem de inspiração

 

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O cuscuz com uma cremosidade a mais é da época que, veja só, Pedro de Artagão ia bater perna nas areias cariocas para vender o doce

A cozinha quente destaca as moquecas, o bobó e um glorioso estrogonofe de camarão. “Mesmo quando há muito sabor, me incomoda um pouco o caldo ralo das moquecas. É algo normal, mas acho que falta textura. Então fazemos uma redução do leite de coco com legumes e uma pasta de pimentão vermelho muito saborosa.”

A sobremesa vem da adolescência, tempo em que o jovem cozinheiro fazia strudels de camarão para vender às amigas da mãe e atacava na praia com os tabuleiros do que se tornaria o famoso cuscuz do Pedro. “Usamos um pouco mais de líquido na hidratação da tapioca para dar cremosidade, e infusionamos o leite condensado com baunilha.”

Como se vê, Pedro de Artagão surfa no Azur uma onda que demorou a se erguer no mar, mas já quebra com reflexos em toda a orla carioca.

Azur – Av. Delfim Moreira, na altura do 1746, Leblon, Rio de Janeiro – RJ. Tel.: (21) 2286-4249. Das 10h às 23h30

 

*Esta reportagem foi publicada originalmente na revista Sabor.club #31, que está na melhores bancas por todo Brasil. E também na banca digital www.zinio.com.

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