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Arigatô! Cervejaria trabalha com imigrantes japoneses que nos ensinaram a cultivar

Ensaio de fotos no Cinturão Verde paulista revela personagens e ingredientes únicos

Pedro Landim - Publicado em 29/06/2020, às 15h00

Em 18 de junho de 1908, o navio Kasato Maru aportou em Santos, no litoral paulista, trazendo a primeira leva de imigrantes japoneses. O início foi nas lavouras de café do interior, mas o trabalho acabou se concentrando em sítios no entorno de São Paulo. Sorte nossa.

Pelas mãos orientais, descobrimos novos modos de produção agrícola e ingredientes como o pepino e a berinjela. Também vieram tomates e outras frutas, ervas e o conceito de cooperativas regulando o valor de venda dos produtos, comercializados a preços justos.

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Hoje, os pequenos produtores do chamado Cinturão Verde paulista aliam técnicas avançadas de cultivo e simplicidade no modo de viver. Um rolê por cidades como Sorocaba, Atibaia e Mogi das Cruzes revela personagens fascinantes como o lavrador Roberto Furuya, que entre frutas diversas produz a rara dekopon, conhecida como tangerina japonesa, e já recebeu técnicos do governo japonês para se aprimorar.

Tamanha riqueza chamou a atenção de Maíra Kimura, Yumi Shimada e Fernanda Ueno, nikkeis da terceira geração de japoneses no Brasil, cervejeiras e sócias na Japas. É notavel o trabalho que fazem em busca de ingredientes produzidos pelos antepassados para criar cervejas que já chamam a atenção fora do país.

Foi a partir das descobertas do trio que o fotógrafo Bruno Fujii produziu o ensaio aqui publicado. Ao longo de um semestre, ele viajou pelas comunidades de agricultores para um lindo trabalho que fortalece a ponte que une tradições orientais à cultura contemporânea, assim como as inéditas experimentações cervejeiras que descrevemos no final.

Isao, Fumiko e Márcio Sakaguti (no centro) são de Piedade, na região de Sorocaba. Um lugar onde a presença dos descendentes se manifesta em eventos culturais como a Festa das Cerejeiras, que exibem suas floradas cor-de-rosa em julho. Mas é no outono que os visitantes podem comer os caquis da variedade fuyu maduros e direto do pé, cultivados sem agrotóxicos

 

Os Kitaguchi plantam o sisho no interior, desde so anos 1940. Hoje, a terra deles, em Área de Proteção Permanente e de Mata Atlântica, proporciona atividades de turismo rural educativo. O sítio produz ainda outros ingredientes orientais como edamame e nirá, e se especializou nos cogumelos, temas de workshops e um festival de gastronomia na região.

  

Em Atibaia, os Mitsuiki, são um dos poucos produtores de yuzu no estado, fruta cítrica admirada por cozinheiros japoneses, que costumam recorrer à polpa congelada. Descendente de umas das cerca de 1.300 famílias japonesas que vivem na região desde 1928, o nissei Claudio enxertou a yuzu em limoeiros e o resultado surpreendeu, com o nascimento da árvore espinhosa que caracteriza a fruta muito aromática e de acidez marcante

 

Em São Miguel Arcanjo, Roberto Furuya produz dekopon, a tangerina japonesa, além de uva, pêssego, maracujá e ameixa. O agricultor já recebeu técnicos disponibilizados pelo governo japonês para aprender as melhores formas de manejo

 


Invasão em Nova York

Inspiração japonesa, origem brasileira e sucesso internacional. Em 2019, a Japas foi a única cervejaria do Brasil convidada para o Extreme Beer Fest, em Boston, evento da Dogfish Head, de Sam Calagione, um dos maiores nomes da cerveja artesanal no mundo.

 

 

A operação gringa virou realidade e os rótulos de Maíra, Yumi  e Fernanda já estão sendo produzidos na cervejaria Great South Bay, em Long Island, e distribuídos em Nova York, inclusive com delivery para pessoas físicas.

 

 

Por aqui, o último lançamento foi a Shukurimu, uma New England IPA de cor verde, com adição de Matchá, o chá verde especial feito com os brotos moídos em pilão de pedra. Interpretação da sobremesa japonesa que lhe empresta o nome, a cerveja leva baunilha, flocos de trigo e aveia, além de um 'caminhão' de lúpulos.


 

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