Leitoa pururuca, farofa de couve e arroz puxado no caldo do assado são pratos da cozinha brasileira de Ana Luiza Trajano - Fotos: Henrique Peron

Leitoa pururuca, farofa de couve e arroz puxado no caldo do assado são pratos da cozinha brasileira de Ana Luiza Trajano - Fotos: Henrique Peron

Ana Luiza Trajano e a comida para celebrar

Ana Luiza Trajano abre a sua casa e nos mostra como faz comida brasileira para celebrar

Robert Halfoun - Publicado em 15/02/2019, às 11h15 - Atualizado às 15h00

A CASA DA ANA LUIZA TRAJANO, em São Paulo, tem uma cozinha grande, debruçada na sala de estar. Quando eu entro num ambiente integrado com o outro, encontro a cozinheira em ação. Ela faz o baião de dois que fotografamos para essa reportagem, feliz da vida. Ali é o lugar no qual ela adora estar, especialmente quando recebe as pessoas, coisa que faz com frequência. “A casa está sempre aberta para receber pessoas legais. Fui criada assim.”

“As pessoas surgem na nossa vida para agregar, né? E eu tenho usado a cozinha para não perder essas relações. Nada agrega mais do que a boa comida”

Ana Luiza cresceu “na Franca”, como dizem na cidade do interior paulista, envolvida por tias que não são tias. São as amigas da mãe dela, que convivem com ela desde criança. Depois cercou-se de amigos que fez quando estudou gastronomia na Itália (não havia cursos da matéria no Brasil), da faculdade de administração que cursou em São Paulo, gente da cozinha, naturalmente. “As pessoas surgem na nossa vida para agregar, né? E eu tenho usado a cozinha para não perder essas relações. Nada agrega mais do que a boa comida.”

Numa dessas madrugadas, se viu na sua confortável bancada fazendo massa de macarrão, com alguns deles, depois de um evento. “Não me lembro quantas horas tinhas, mas eram muitas”, diverte-se.

Na mesa dela tem, entre outros, cupim assado com batatas e arroz com frutos do mar – esse nunca pode faltar

Assim como nos momentos que prepara todo o ritual para encontros mais programados, geralmente nos fins de semana. Há ocasiões que ela chega a receber 20, 30 pessoas. Então monta uma estação para os vinhos, outro para água, deixa a mesa pronta, incluindo a meia dúzia de lugares que têm defronte ao seu fogão. “A intenção é que todo mundo fique absolutamente à vontade, sentindo-se na própria casa”, diz. E completa: “Deixo tudo pronto para eu também participar da festa.”

[Colocar Alt]

A cozinha aberta da casa da Ana Luiza Trajano: “Também quero participar da festa”

No cardápio, comida brasileira, claro, incluindo os pratos que a família adora e são sempre servidos nos mais diversos rega-bofes. A leitoa a pururuca é o preferido da matriarca. “Lá em casa, a parte da pururuca vai para os mais velhos; a carne branca para os adultos e os pequenos só faltam roer os ossos.” Para beliscar o pedaço mais crocante do suíno, ela passou a fazer o prato. E continua responsável por ele até hoje. A diferença é que ela agora separa os nacos mais apetiotosos para os filhos, Pepeu e Tutu. O mais velho acha que o baião de dois é o melhor prato do mundo. O caçula, orgulha-se a mãe, come quatro pratos de feijoada, apesar dos parcos 8 anos de idade.

“De onde eu venho, o que vale não é o que você é ou o que você tem. É o que você representa. A cozinha é a minha paixão, um projeto de vida”

As receitas preferidas dos pequenos também não faltam nos encontros na casa da Ana Luiza, assim como o arroz de frutos do mar, “que todo-mundoa-do-ra”. Todas elas têm seus segredos revelados nos livros lançados pela cozinheira e, mais do que isso, têm as suas histórias pesquisadas por ela.

O baião de dois, diz Ana Luiza, talvez seja o seu grande pratos de resistência, um novo clássico da cozinha brasileira, pela maneira como ela repensou o ícone

O gosto pela pesquisa se deu dentro da casa os pais dela, onde não faltam livros e estudo. Eles são os valores da família, como diz. Os Trajano passaram por grande ascensão social, desde que transformaram a sua Magazine Luiza em sinônimo de loja de venda de eletro-eletrônicos. O dinheiro, no entanto, não mudou a essência da vida deles. “De onde eu venho, o que vale não é o que você é ou o que você tem. É o que você representa.”

[Colocar Alt]

A ideia, de certa forma, também a levou à criação do Instituto Brasil a Gosto. “A cozinha é a minha paixão e não quis que ela estivesse desconectada de um projeto de vida.” Foi na casa onde os avós chegaram como retirantes (os maternos vieram a pé de Caetés, em Pernambuco) que Ana Luiza aprendeu o valor da cozinha brasileira. “Eles cresceram socialmente mas fizeram questão de ter a culinária de casa absolutamente brasileira, sem a afetação de importar pratos e costumes da França, por exemplo.” E lembra: “A casa da minha vó tem fogão a lenha aceso até hoje”.

O contato com outras culturas acontecia quando a mãe levava os filhos, do interior para a capital, para frequentar restaurantes a la carte, que não existiam em Franca. “Não podemos fazer delas as nossas primeiras referências.” O instituto é peça fundamental para isso. Ana conta que o restaurante que dá nome ao projeto atual ia muito bem, obrigado, até quando foi fechado definitivamente. Na verdade, ele era pequeno diante da missão que tem a entidade. “Fazem dois anos que venho estruturando o trabalho. Chegou a hora de transformar o propósito em legado.”

O objetivo é ser uma plataforma de pesquisa, de interação e de conexão dos elos da cadeia, que todos possam utilizar. E ele começa a ser atingido com o largo acervo feito em mais de 50 viagens que Ana Luiza fez pelo Brasil, nos últimos 12 anos. E também com os cursos, com os livros que vêm por aí (a ideia é lançar 10 por ano), com o projeto social piloto, que já acontece em São Paulo. Ele capacita mulheres que sofreram abuso, ensinando a elas a fazer quitutes brasileirinhos que rapidamente podem se transformar em renda.

“A cozinha de um país está viva quando é feita na casa das pessoas. Na minha, não tem essa de avisar antes. Feio não é aparecer de surpresa, é comer e não repetir”

Vem aí também a marca Brasil a Gosto para produtos que estão em teste e já já chegarão às gôndolas. “Acho que a gente precisa estar nesse mundo para fazer papel maior do que simplesmente servir a si. O contrário é muito fácil.”

Como bancar tudo isso? Com o apoio de patrocínios e também “anjos” que queiram investir no negócio a longo prazo. Entre uma aula aqui, um programa de TV ali e uma viagem acolá, Ana Luiza está absolutamente comprometida a captar o que precisa. “Eu tenho certeza que nasci para fazer o bem. Tenho uma inquietação de contribuir mais para ver o Brasil bem representado na mesa das pessoas.”

O que ela quer dizer é que até hoje os supermercados ainda não têm uma farinha boa. Nem arroz, nem feijão. “A cozinha de um país está viva quando, de fato, é feita na casa das pessoas. Nós podemos evoluir demais neste aspecto.”

Enquanto Ana Luiza segue obstinada em busca do que almeja, não deixa de fazer as suas festas. Quem quiser, como diz, pode chegar. “Na minha casa não tem essa de avisar antes. Feio não é aparecer de surpresa, é comer e não repetir.”

Leia também