Abelhas nativas produzem um excelente mel na Fazenda Itaicá de Márcia e Eugênio - Fotos: Chico Max

Abelhas nativas produzem um excelente mel na Fazenda Itaicá de Márcia e Eugênio - Fotos: Chico Max

O fantástico mel das abelhas brasileiras

Márcia e Eugênio Basile querem fazer o mundo conhecer o mel fantástico que as nossas abelhas produzem

Robert Halfoun - Publicado em 06/02/2019, às 17h00

A FAZENDA ITAICÁ, NA REGIÃO DE ATIBAIA, A POUCO MAIS DE UMA HORA de carro da capital paulista, é um lugar belíssimo. Com uma sede muito agradável, também de beleza inominável. Márcia Basile frequenta o lugar, erguido pelos pais e adorado pela mãe, desde que nasceu. Recentemente, depois que a matriarca partiu, os custos para fazer da área algo sustentável e uma certa sensação de perda que doía no peito, a fizeram querer vender a propriedade.

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Aí, entra em cena o sogro Antônio Basile, um senhor muito distinto, que mantém há anos a fazenda da família dele, do outro lado do vale. “Você não vai fazer nada até entender qual é a vocação da sua terra”. Então enviou uma caixa com abelhas Apis, aquelas que os portugueses introduziram por aqui, quando colonizaram o Brasil. “Coloca nas pedras, naquela parte alta do terreno, e veja o que acontece com essas colmeias.” Meses depois, o casal passou pelo ponto e encontrou a caixa abarrotada de mel. “Me deu clique, com uma sensação que me liga a terra muito forte”, conta ela.

Dali para frente, a estilista que fazia calçados exclusivos para lojas de alto gabarito, e os entregava prontos para a venda, fechou a sua fábrica, encaminhou a vida dos seus quase 200 funcionários e foi viver de... mel. Na verdade, investir e reinvestir na recém-criada Mbee, que começou vendendo apenas meles de Apis com grande qualidade, sem misturar lotes ou floradas e também beneficiando produtos com óleos essenciais.
O marido Eugênio, consultor estratégico de empresas gigantes, se envolveu no negócio para ajudar na nova atividade da mulher. Ele frisa, no negócio dela.

Ele só realmente entrou no jogo quando foi vender mel para o chef Alberto Landgraf, no extinto Épice, em São Paulo. “De cara, ele me deu um banho de água fria, com a maior delicadeza. Disse que não usava o tipo de produto que eu tinha, por melhor que ele fosse.” Como? Alberto já trabalhava com os meles de abelhas nativas, embora nem o Eugênio soubesse que elas existiam. Quando conheceu, “pirei com o produto e ele mudou a minha vida.”

“Se as abelhas não saber falar, agora tem alguém falando por elas. De uma forma lúdica e com produtos sensorialmente fantásticos que mobilizam as pessoas”

Abelhas nativas são os insetos que vivem no Brasil desde sempre, que não foram introduzidos por aqui. Elas são bem miúdas e têm o ferrão atrofiado, o que as impede de picar quem se aproxima das suas colmeias. Produzem um tipo de mel muito diferente daquele que as Apis fazem. E numa quantidade infinitamente menor. Em resumo, estamos falando de uma iguaria que expressa o terroir como pouco se vê. Além das características naturais da terra e ainda insolação e calor, elementos tão fundamentais para a produção desses insetos, a levedura local dá uma assinatura muito especial para o mel das nativas. E ela varia muito de lugar para lugar. Por exemplo, é possível encontrar meles muito diferentes, um claro e o outro escuro, da mesma abelha, a mandaçaia, no interior da Bahia. Eles, no entanto, mantém as propriedades fundamentais da produtora. Seja um mel mais doce ou mais ácido ou mais picante. E por aí vai.

Outro aspecto importante no mel das nativas é que eles fermentam. Essa fermentação dá toques de aroma e sabor muito especiais ao produto, que, depois de extraído e envasado, deve ser refrigerado. A refrigeração interrompe a fermentação e mantém o caráter de cada produto.
Por ter aroma e sabor muito delicados, o mel da abelha nativa, com o trabalho da Márcia e do Eugênio, rapidamente caiu no gosto de outros grandes chefs da gastronomia brasileira. Ivan Ralston, do Tuju, duas estrelas Michelin, é um deles. Se envolveu de tal forma com o produto que ajudou a praticamente ressuscitar colônias da abelha Emerina, que estava em extinção, do sul do país, o seu habitat. Eugênio estava com ele.

No árduo trabalho de encontrar raros produtores que tinha, caixas do inseto, deixava claro para cada uma deles, quando os encontrava: “Olha, o que vocês produzirem eu compro”. A garantia de renda mudou a vida de muita gente. Na verdade, dos mais diversos apicultores que trabalham com abelhas nativas. Depois de uma aparição do sr. Mbee no programa da Fátima Bernardes, na Globo, os pequenos produtores começaram a aparecer e, hoje, tem suas produções inteiramente vendidas.

A fazenda Itaicá sempre teve abelhas nativas circulando pelas redondezas. Os proprietários é que não tinham olhos para elas. Agora, há as colônias, apenas com os insetos que sempre viveram por ali. Na apicultura há correntes distintas que defendem e condenam a criação de abelhas vindas de regiões não sejam as originais. Na dúvida, Márcia e Eugênio não “importam” abelhas. E têm um produção pequena, incrementada pela rede impecável que criaram com apicultores de todo o país.

A fazenda Itaicá e alguns pratos que podem ser feitos com mel de abelha nativa, como o creme de queijo e o badejo assado

Com a lei que libera a venda do produto alimentício artesanal Brasil afora, os pontos de venda que receberam o mal da abelha nativa, explodiram de vender o mel e hoje há fila de espera para arrematar o produto.

O interesse crescente se dá pela surpresa de quem descobre um mel adocicado repletos de notas gustativas das mais variadas, perfeito para mesa ou cozinha.
A brincadeira é fascinante. Márcia e Eugênio têm uma área muito especial na Itaicá, toda cercada com grandes janelas de vidro, para receber os convidados e cozinhar com o meles da abelhas nativas. Lá o Eugênio pilota um senhor forno a lenha de alta de temperatura e também uma churrasqueira de respeito. Nelas faz receitas (“todas de cabeça”, diz) seja com chefs amigos ou sozinho, a partir das referências que busca no mundo todo.

A nossa missão de Mbee, dizem, é, além de tudo, desvincular o mel da ideia de saúde e conectá-lo com a de prazer. “Mel vendido em farmácia, para mim, é uma aberração. Mel não é remédio. Ele deve fazer parte de uma boa alimentação que, naturalmente, vai melhorar a sua saúde”, defende Márcia. E vai adiante: “Se as abelhas não saber falar, agora tem alguém falando por elas. De uma forma lúdica e com produtos sensorialmente fantásticos que mobilizam as pessoas. Então, elas passam a fazer parte de uma causa com fundamento. De forma deliciosa.”

O Mel

1 - Uruçu amarela -  Alta acidez, corpo leve e marcante. Rústico, com alta fermentação e sensação alcoólica que remete a licor. Harmoniza com queijos leves e alta culinária. Emerina Muito sofisticado, com doçura muito baixa, alta acidez e forte fermentação. Intrigante, com notas de limão, resina e trufas.

2 - Jataí - Tem acidez baixa e corpo untuoso. Leve amargor, gosto alcoólico e de própolis. Sabores herbais e de algo que remete à poeira e terra.

3 - Emerina - Muito sofisticado, com doçura muito baixa, alta acidez e forte fermentação. Intrigante, com notas de limão, resina e trufas.

4 - Tiúba - É bastante floral, com doçura média/ alta. É leve e delicado, com forte vocação para confeitaria em geral.

5 - Mandaçaia - É picante e cremoso. Lembra alcaçuz, capim fresco e caramelo. Tem baixa acidez e gosto de frescor.

6 - Jandaíra - Presença aromática marcante, densidade média, doçura elevada, acidez equilibrada, com notas de ervas e especiarias.

Este texto foi publicado originalmente na revista Sabor.club #23 que está na melhores bancas por todo Brasil. E também na banca digital zinio. Ou assine clicando aqui.

 

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